Por Daniella França

A região do município de Murici, em Alagoas, ainda abriga um dos poucos remanescentes da Mata Atlântica que se estendia antigamente por toda a costa nordestina. A floresta densa e úmida abrigava uma fauna muito particular que sofreu um processo de extinção abrupto devido à devastação do seu habitat (desencadeada pela colonização europeia da região e concluída pelos diversos ciclos econômicos mais recentes do café e da cana-de-açúcar). Apesar de não conhecermos a verdadeira amplitude da perda de biodiversidade ocorrida na região, ainda há esperança de manter conservada a sua fração que, de alguma forma, continua presente ali. Um dos seus maiores símbolos faunísticos é, sem dúvida, a ave mutum-de-Alagoas (Pauxi mitu), que recentemente foi reintroduzida à sua área nativa, mas há outros exemplos não tão conhecidos, porém não menos interessantes. Esse é o caso de um pequeno invertebrado do gênero Peripatus, popularmente chamado de “minhoca-aveludada” (do inglês “velvet worm”).

As minhocas-aveludadas pertencem ao Filo Onychophora, um grupo de animais estritamente terrestres e com aparência vermiforme, que podem ser encontrados nas regiões tropicais e temperadas do Hemisfério Sul. Apesar da sua aparência semelhante a de uma lagarta de borboleta, os onicóforos formam um grupo bastante distinto morfologicamente dos demais invertebrados. Eles se distinguem mais especificamente dos artrópodes, com os quais compartilham um ancestral comum mais próximo, pelos seus tentáculos na cabeça, e por uma série de pares de patas laterais, terminadas em garras, distribuídas uniformemente ao longo do corpo. O registro mais antigo desses animais data de 350 milhões de anos, com alguns registros extraordinários de espécimes preservados em âmbar e datados de mais de 100 milhões de anos. Nosso pequeno exemplar figurado acima ilustra que essa longa linhagem de invertebrados ainda se mantém preservada nas matas frondosas do Nordeste do Brasil.

Foto de capa: Daniella França

Ilustração: Bruno Navarro

Para saber mais:

Oliveira et al., 2016. Earliest Onychophoran in amber reveals Gondwanan migration patterns. Current Biology 26, 2594-2601.