Por André Cattaruzzi e Bruno Navarro

Os livros de Paleontologia dividem os dinossauros em dois grupos bem consolidados: os saurísquios e os ornitísquios. O primeiro desses grupos contém os sauropodomorfos (herbívoros quadrúpedes gigantes, com pescoços e caudas longas, como o Brachiosaurus) e os terópodes (dinossauros predominantemente carnívoros, bípedes, como os famosos Velociraptor e Tyrannosaurus, assim como as aves).

O segundo grupo, os ornitísquios, inclui a maioria dos dinossauros herbívoros, como os estegossauros e anquilossauros (quadrúpedes com espinhos e placas ósseas ao longo da superfície dorsal do corpo), os ornitópodes (que incluem tanto formas bípedes quanto quadrúpedes, entre eles os hadrossauros, os “dinossauros bicos-de-pato”) e por fim os marginocéfalos (que também incluem tanto dinossauros bípedes – os paquicefalossauros – quanto quadrúpedes, como os ceratópsios – como, por exemplo, o Triceratops).

Entretanto, um estudo recentemente publicado na revista Nature em março desse ano pelos pesquisadores Matthew Baron, David Norman e Paul Barrett da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, propôs uma visão alternativa e que surpreendeu tanto pesquisadores quanto entusiastas interessados na origem e evolução dos primeiros dinossauros: os terópodes estariam mais próximos dos ornitísquios do que dos sauropodomorfos!

Um pouco de história…

A principal característica utilizada para separar saurísquios de ornitísquios era a configuração dos ossos do quadril (ver infográfico). Os saurísquios são caracterizados por possuir o osso púbico voltado para baixo e para frente, similar à condição encontrada em outros grupos de répteis, como lagartos e crocodilos (daí o seu nome Saurischia, que significa em latim “quadril de lagarto”). Essa separação foi inicialmente proposta há 130 anos e foi muito bem aceita pela comunidade científica.

Infográfico: Bruno Navarro

Os ornitísquios, por sua vez, possuem o osso púbico direcionado para trás, condição parecida com o observado nas aves (Ornithischia, em latim, significa “quadril de ave”). No entanto, a semelhança do quadril de aves e de ornitísquios é apenas superficial, tendo evoluído de forma independente ao longo da história evolutiva dos dinossauros.

Por estas e outras razões, até os anos 1970, a maioria dos paleontólogos considerava que saurísquios e ornitísquios não possuíam uma relação direta de parentesco.

Ainda na mesma década, Robert Bakker e Peter Galton publicaram um estudo onde propuseram que os dois grupos de dinossauros eram bastante relacionados entre si, e que as características típicas desses animais – como a postura bípede das formas mais primitivas e o acetábulo aberto (região do quadril onde se articula o osso da coxa) – teriam evoluído uma única vez, em um ancestral comum a ambos. Os dois grupos teriam divergido logo no início de sua história evolutiva, por volta de 230 milhões de anos atrás (Ma). Ao contrário dos estudos prévios, estes autores frisaram as semelhanças compartilhadas entre os dois grupos, e não as diferenças entre eles, alcançando assim a atenção da comunidade científica.

Os saurísquios são caracterizados por possuir o osso púbico voltado para baixo e para frente, similar à condição encontrada em outros grupos de répteis, como lagartos e crocodilos

 

Essa hipótese ganhou força a partir dos anos 1980 e prevaleceu sem grandes questionamentos na academia, graças ao uso da Sistemática Filogenética, que tem como principal fundamento a identificação de características (anatômicas ou não) compartilhadas por grupos de organismos com um ancestral comum e todos os seus descendentes (ver “grupos naturais” (monofiléticos) na seção Glossário).

A nova proposta

Com o novo estudo, Baron e colaboradores propuseram uma mudança bastante drástica na configuração entre os dois agrupamentos de dinossauros (Figura 2). O estudo incluiu descobertas paleontológicas recentes, considerando não apenas os dinossauros em si, mas também formas proximamente relacionadas, como os silessauros.

Os ornitísquios, por sua vez, possuem o osso púbico direcionado para trás, condição parecida com o observado nas aves

O estudo também considerou um grande número de representantes dos ornitísquios, diferente de outras análises feitas até então. A surpresa veio no resultado final das análises, que contestou 130 anos de pesquisas sobre os dinossauros. Pela primeira vez, os terópodes aparecem como os parentes mais próximos dos ornitísquios. Este novo grupo foi chamado de Ornithoscelida (em português Ornitocélidos, que significa “membros de ave”), um nome criado em 1870 pelo famoso naturalista britânico Thomas Henry Huxley, que na época já havia notado similaridades entre os ossos dos membros de dinossauros terópodes e ornitísquios. O grupo conhecido por saurísquios, por outro lado, passa a conter apenas os sauropodomorfos e um pequeno grupo de dinossauros carnívoros primitivos chamados herrerassauros.

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Infográfico: Bruno Navarro

As características anatômicas que unem ornitísquios e terópodes estão distribuídas por diversas partes do corpo desses animais, e se encontram principalmente na região do crânio e dos membros. Uma delas, por exemplo, é a presença de uma crista de inserção muscular no topo do osso da coxa, que indica que esses dois grupos possuíam musculatura e modos de locomoção semelhantes. Outras características importantes consistem no formato de alguns ossos do crânio, como o maxilar.

Impactos gerados pelo estudo

O estudo tem implicações ainda mais amplas, pois afeta o modo como entendemos a evolução dos dinossauros como um todo e das aves em particular. A presença de penas primitivas em alguns fósseis de ornitísquios, por exemplo, pode reforçar essa nova proposta evolutiva. Apenas grupos de terópodes e ornitísquios possuem tais estruturas preservadas, enquanto em sauropodomorfos ocorrem escamas, mais parecidas com as de outros répteis. Isso sugere que essas penas primitivas estariam presentes apenas no ancestral dos ornitocélidos, e não no de todos os dinossauros.

Ainda assim, o estudo não responde perguntas a respeito da origem de outras características também compartilhadas por esses animais, e possui ainda alguns pontos controversos. Por exemplo, grupos de sauropodomorfos e terópodes (principalmente as aves) possuem uma característica bastante peculiar: pneumatização em seu esqueleto (espaços ocos dentro dos ossos, tornando-os menos densos – característica importante para o vôo das aves). Os ornitísquios, por sua vez, não possuem essa característica.

Outro ponto polêmico do estudo é quanto à interpretação do local de origem dos dinossauros. As análises anteriores indicavam que os dinossauros teriam surgido no Hemisfério Sul, em algum ponto entre a região sul da África e América do Sul. Uma grande quantidade de formas mais antigas foi encontrada nesta parte do planeta, principalmente no Brasil e Argentina, o que parecia confirmar essa hipótese. Porém, a nova proposta sugere uma origem no Hemisfério Norte, com base em alguns parentes próximos dos dinossauros encontrados na Inglaterra e Escócia.

Pela primeira vez, os terópodes aparecem como os parentes mais próximos dos ornitísquios

 

Parte destas dúvidas decorre da dificuldade em se estudar os estágios iniciais da evolução de grupos proximamente relacionados, pois quanto mais nos aproximamos das espécies que compõem a base de sua árvore evolutiva, mais difícil fica de distingui-las entre si.

As pesquisas sobre a origem dos dinossauros ganharam novas perspectivas nos últimos anos, com novas descobertas e interpretações acerca das espécies primitivas de terópodes, sauropodomorfos e ornitísquios, preenchendo importantes lacunas no entendimento desses grupos. A partir desses novos achados, é possível inferir que os primeiros dinossauros eram animais bípedes de pequeno porte e generalistas (onívoros), sendo a alimentação carnívora uma adaptação secundária que surgiu em alguns grupos de terópodes.

O novo estudo sugere uma nova hipótese de relação de parentesco entre os grupos de dinossauros, mas ainda não podemos determinar se esta irá substituir a proposta antiga. No entanto, certamente desencadeará novas pesquisas e discussões por parte dos pesquisadores e necessitará de descobertas adicionais que definirão se irá prevalecer ou não. Afinal, é assim que se trabalha a Ciência, analisando imparcialmente todas as evidências disponíveis e sempre se atualizando a partir de novas ideias.

Saiba mais sobre este estudo:

Baron, M. G., Norman, D. B. & Barrett, P. M. 2017. A new hypothesis of dinosaur relationships and early dinosaur evolution. Nature doi:10.1038/nature21700

Demais referências utilizadas:

Bakker & Galton, 1974. Dinosaur monophyly and a new class of vertebrates. Nature, 248 (5444), 168-172.

Benton et al., 2014. Models for the rise of the dinosaurs. Current Biology, 24 (2), R87-R95.

Huxley, T. H. 1870. On the classification of the Dinosauria, with observations on the Dinosauria of the Trias. Quarterly Journal of the Geological Society, London 26, 32-51.

Langer, M. C. 2014. The origins of Dinosauria: much ado about nothing. Palaeontology, 57 (3), 469-478.

Langer et al., 2010. The origin and early evolution of dinosaurs. Biological Reviews, 85 (1), 55-110.

Nesbitt, S. J. 2011. The early evolution of archosaurs: relationships and the origin of major clades. Bulletin of the American Museum of Natural History 352.

Seeley, H. G. 1887. On the classification of the fossil animals commonly named Dinosauria. Proceedings of the Royal Society of London, 43 (258-265), 165-171.