Por Luis Henrique Bio

O século 20 trouxe consigo mudanças no modo de pensar, no modo de agir e de conviver das pessoas, e essa nova visão de mundo possibilitou avanços tecnológicos que acabaram por fundir-se com a maneira como contamos uma boa história. O início do século 21, então, nem se fala: é simplesmente vertiginoso nesse aspecto.

Esses avanços ao longo do tempo tornaram a Ciência e a cultura pop tão intrínsecas que hoje podemos presenciar partes da ficção transformando-se em realidade, como é o caso dos tênis auto-ajustáveis de Marty Mcfly em “De Volta Para o Futuro 2”, anunciados oficialmente pela Nike em 2015, bem como tecnologias antes encontradas apenas no cinema, na televisão, na literatura e nas histórias em quadrinhos, entre outras mídias, e que hoje já fazem parte do mundo real.

Por isso, nesse primeiro texto da seção Cultura Pop, nada mais justo do que trazer a opinião dos cientistas do nosso laboratório, que também contribuem para o Filos, sobre como a Ciência é mostrada ao público através dos filmes, dos quadrinhos e até mesmo da música. O quanto do que vemos pode se tornar realidade? O quanto é inverossímil, mas ainda assim divertidíssimo enquanto entretenimento?

E aí, preparado para embarcar nessa? Então começaremos com:

A evolução do cientista na Sétima Arte

De acordo com Ana Bottallo, paleontóloga e também Editora-chefe deste site que você está lendo, “A visão do cientista no cinema foi, durante muito tempo, a de um cientista louco, um criador, um bruxo, que dá vida a criaturas monstruosas, como acontece em Frankenstein e O Médico e o Monstro”. Ela continua sua análise, lembrando que nas décadas de 80 e 90 o cientista era representado nas telonas como o responsável pelo fim da raça humana ou pela criação de uma nova raça que sobreviveria ao fim apocalíptico da Terra, citando como exemplo as franquias “Mad Max” e “O Exterminador do Futuro”.

Jurassic Park – Corpo 1 – breakinggeek
Jurassic Park (1993). Fonte: breakinggeek.com

É claro que não há como passar pelos anos 90 sem mencionar o clássico “Jurassic Park”, e toda sua premissa de seres criados e modificados geneticamente em laboratório – tendência que continuou em filmes como “Gattaca” e “O Sexto Dia”, esse último já em 2000. A partir daí, tivemos na primeira década do novo milênio filmes como “O Dia Depois de Amanhã”, “Eu Sou a Lenda” e “Contágio”, retratando os cientistas como “profetas do fim do mundo” ou conhecedores do mal que acabaria com a raça humana.

A visão do cientista no cinema foi, durante muito tempo, a de um cientista louco, um criador, um bruxo, que dá vida a criaturas monstruosas, como acontece em Frankenstein e O Médico e o Monstro

Mas nos últimos anos, os filmes passaram a retratar a figura do cientista de forma mais humanizada, como uma pessoa qualquer, com suas próprias histórias pessoais e sujeita a emoções, dores, sofrimentos e superações, como podemos ver em “Uma Mente Brilhante”, “O Jogo da Imitação”, “A Teoria de Tudo” e no recente “Estrelas Além do Tempo”, só para citar alguns exemplos.

The Immitation Game – Corpo 2 – thehollywoodreporter
O Jogo da Imitação (2015). Pinterest

“Esperamos que cada vez mais os filmes mostrem não só as dificuldades profissionais de ser um cientista, mas também os desafios pessoais que afetam a vida e carreira dos cientistas, desmistificando assim, ao menos um pouco, a visão de uma pessoa que sabe tudo, desprovida de emoções, que pensa apenas em si própria, um pouco sádica e com um quê de louco”, finaliza Ana.

Entre páginas e mutações genéticas: a ciência nas histórias em quadrinhos

Falando em cinema, é inegável o atual boom de produções relacionadas a super-heróis: Batman, Homem de Ferro, Capitão América, Mulher Maravilha, X-Men, todos já deram o ar da graça nas telonas, e hoje mais do que nunca predominam no mundo do entretenimento. Mas há todo um universo muito mais rico e complexo para os super-heróis em sua “casa” original: as histórias em quadrinhos – que têm seu início em 1938 com publicação da HQ Action Comics nº1, contendo a primeira história do Super-Homem.

Para o herpetólogo Paulo Roberto Machado Filho, a grande questão é: como a biologia está pautada nos universos fictícios onde habitam os super-heróis? Ele avalia que, na maioria dos casos, a resposta está nas mutações genéticas.

“No passado, assuntos relacionados à radioatividade causavam ao mesmo tempo receio e inspiração. Os autores de quadrinhos explicavam o surgimento de seus heróis e vilões através de acidentes radioativos fictícios, que transformavam pessoas comuns em super-humanos com poderes que lhes permitiam ultrapassar o limite físico ou psíquico da nossa espécie. Atualmente, com o desenvolvimento progressivo da engenharia genética, as histórias em quadrinhos têm ganhado versões e enredos mais complexos, com eventos que envolvem até mesmo incorporação de DNA de outras espécies animais no DNA do personagem, permitindo o desenvolvimento de talentos excepcionais”, diz Paulo.

Spiderman – corpo 3 – comicvine
Homem-Aranha e Lagarto, nos quadrinhos atuais. Fonte: comicvine.gamespot.com

É o caso, por exemplo, do Homem-Aranha, que após ser picado tornou-se um escalador de paredes com sentidos extremamente aguçados (e um dos super-heróis mais populares atualmente), bem como do personagem Lagarto, um de seus arqui-inimigos, que tem sua origem na fantasia através do estudo de regeneração de membros. Em ambos os casos, o não-comprometimento com a realidade é o que permite a liberdade criativa em cima do tema.

No passado, assuntos relacionados à radioatividade causavam ao mesmo tempo receio e inspiração. Os autores de quadrinhos explicavam o surgimento de seus heróis e vilões através de acidentes radioativos fictícios, que transformavam pessoas comuns em super-humanos com poderes que lhes permitiam ultrapassar o limite físico ou psíquico da nossa espécie

Paulo finaliza, dizendo que nós, humanos, somos todos mutantes: “O DNA humano, como o de qualquer organismo vivo, sofre alterações ao longo das gerações, sofrendo mutações e se recombinando de forma que nos possibilite resistir a intempéries ambientais, ou mesmo nos garantindo a resistência a doenças. Não podemos voar, nem temos uma regeneração quase instantânea como ocorre com o Wolverine, dos X-Men, uma vez que essas características necessitariam de mudanças morfológicas irreais. Contudo, ver um humano ultrapassando a velocidade do som, como o Flash, ou controlando todas as moléculas ao seu redor como o Dr. Manhattan, de Watchmen, nunca deixará de ser algo empolgante. Irreal, mas empolgante! ”. Tudo em nome de um bom entretenimento!

Dr Manhattan – Corpo 4 – jamesrayneau.wordpress
Dr. Manhattan, Watchmen (1986). Fonte: hollywoodreporter.com

Ciência em ondas sonoras

A música existe para que possamos apreciá-la, para agradar os ouvidos, para relaxar e, claro, é uma forma de expressão que nos permite transmitir mensagens e ideias através dela. E para Wellton Araújo, biólogo e Editor de Redes Sociais do Filos, a música é uma das melhores formas de divulgação científica que ocorrem dentro da cultura pop.

Ele acredita que a interação entre ciência e música se dá, em sua maioria, por meio da mensagem lírica de suas poesias, citando como exemplo artistas como The Who, Pink Floyd e David Bowie, que constantemente usam ou já usaram a ficção científica como fonte de inspiração.

“Há ainda artistas que se utilizam da arte sonora para passar mensagens não-fictícias, tendo como base o pensamento científico, como é o caso do músico Tim Minchin e das bandas They Might be Giants e Bad Religion. Além disso, a ciência costuma influenciar diretamente a vida de grandes artistas, como é o caso de Dexter Holland, vocalista do The Offspring, que possui doutorado em biologia molecular e do guitarrista Brian May, que é Ph.D em Astrofísica”, conta Wellton.

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Brian May, ex-guitarrista do Queen, no Rock in Rio em 2015. Fabio Tito/G1

O biólogo avalia que, devido à sua popularidade, a música também é usada como forma de propagar facilmente uma ideia, seja em forma de jingle, trilha sonora ou mesmo abertura de programa de televisão, como ocorre na série de comédia americana The Big Bang Theory.

Há ainda artistas que se utilizam da arte sonora para passar mensagens não-fictícias, tendo como base o pensamento científico

“A música é a arte dos sons, e como tal ela utiliza diretamente a física a seu favor, seja através da acústica de um violão ou de acordo com o tamanho das cordas de um piano. Pitágoras é considerado tanto o pai da matemática quanto da música, já que ele utilizou as frações para estudar as oitavas de um instrumento. Podemos dizer então, sem medo de errar, que a música em si é uma ciência”, finaliza.

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A banda de punk rock americana Bad Religion. Fonte: epitaph.com

E então, pronto para curtir aquele filme, ler aquele quadrinho ou ouvir sua música predileta através de uma nova ótica?

 

Referências:

De Volta para o Futuro 2

Frankenstein (1931)

O Médico e o Monstro (1941)

Mad Max (1979)

O Exterminador do Futuro (1984)

Jurassic Park (1993)

Gattaca (1997)

O Sexto Dia (2000)

O Dia Depois de Amanhã (2004)

Eu Sou a Lenda (2007)

Contágio (2011)

Uma Mente Brilhante (2001)

O Jogo da Imitação (2015)

A Teoria de Tudo (2015)

Estrelas Além do Tempo (2016)