Por Ernesto Aranda Pedroso

As Antilhas são conhecidas por serem um cenário biogeográfico excepcional[1], devido às extinções, colonizações e radiações adaptativas que moldaram a história evolutiva de alguns de seus grupos animais[2-4]. O surgimento de ilhas permanentes na região antilhana tem início no Eoceno, há aproximadamente 40 milhões de anos atrás[5], e a partir daí inicia-se a história evolutiva das linhagens atuais[4]. Existem duas hipóteses principais para a chegada da fauna terrestre: (1) a formação da Gaarlandia durante a transição Eoceno-Oligoceno (aproximadamente 34 milhões de anos atrás), uma cadeia de ilhas que funcionou como um filtro para a passagem das espécies[4, 6]; e (2) a dispersão oceânica através das balsas naturais ou fenômenos meteorológicos intensos[7]. Os répteis Squamata podem ter utilizado qualquer uma dessas duas vias para colonizar as Antilhas, e ali irradiaram-se nos grupos atuais. Através do estudo de dados moleculares, é possível confirmar que as linhagens desses répteis parecem ter chegado às Antilhas durante a era Cenozóica, exceto o gênero de lagarto cubano Cricosaura (Figura 1), que é muito mais antigo, sendo conhecido como uma linhagem relictual. Esse gênero possivelmente teve sua irradiação ali a partir da era Mesozóica[8], embora não existam registros fósseis que comprovem essa hipótese em nenhuma das ilhas. Outros gêneros de lagartos, como Cyclura e Leiocephalus, provavelmente surgiram nas Antilhas em meados do Cenozóico, enquanto os demais gêneros de Squamata colonizaram a região mais recentemente[8].

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Figura 1. Duas espécies de répteis endêmicas de Cuba: à esquerda, o lagarto Cricosaura typica (cuban night lizard); à direita, a cobra Cubophis cantherigerus (cuban racer). Fotos retiradas do http://reptile-database.reptarium.cz.

Até o momento, o registro fóssil de Squamata do Cenozóico das Antilhas provém de 15 localidades diferentes, com até 25 espécies distintas identificadas[3, 9-11]. O mais antigo deles, do Eoceno Inferior (aprox. 55 Ma), é representado por um dentário de lagarto da Jamaica[12], região pertencente paleogeograficamente ao continente, e não às Antilhas[6]. Já para o Mioceno (aprox. 23 Ma a ~5Ma) são encontrados no âmbar dominicano (reconhecido mundialmente como o âmbar mais diverso[13]) os gêneros Anolis[14-16] e Sphaerodactylus[13, 17]. Restos de Boidae (uma serpente) e de Iguanidae (um lagarto) indeterminados também foram recuperados de afloramentos fluviais da Formação Cibao (Mioceno) em Porto Rico[10]. Porém, o registro mais abundante é sem dúvidas o do Quaternário (~2.5 Ma até o presente), com fósseis de répteis encontrados em numerosas localidades espalhadas por quase todas as ilhas das Antilhas. Esse registro fóssil confirma a presença dos lagartos dos gêneros Anolis, Aristelliger, Celestus, Cyclura, Leiocephalus, Pholidoscelis, e Thecadactylus, e das serpentes dos gêneros Boa, Cubophis e Typhlops[11, 18-24].

O registro fóssil de vertebrados de Cuba vai do Mesozóico (Jurássico, ~160 Ma)[25] até o Quaternário, com espécimes encontrados também na região das Antilhas. Contudo, o registro fóssil de Squamata da ilha pertence todo ao Quaternário, sendo associado principalmente aos depósitos de cavernas (Figura 2).

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Figura 2. Restos de fósseis de vertebrados no interior da caverna Cueva Chchí, Ojo de Agua, Sierra del Rosario, Artemisa, Cuba. Medição e foto por Ernesto Aranda.

Atualmente, foram registradas nesses depósitos as espécies de lagartos Anolis lucius, A. equestris, A. porcatus, A. luetogularis, A. chamaleonides, Cyclura nubila, Leiocephalus cubensis, L. carinatus, Tarentola americana, e de serpentes Chilabothrus angulifer e Cubophis cantherigerus[26-35] (Figura 3). Esse registro torna-se particularmente importante por apresentar uma diversidade majoritariamente de espécies endêmicas, com representantes de gêneros também existentes em outras regiões das Antilhas, e representa 7,3% da fauna cubana atual de Squamata[36]. Embora essa porcentagem pareça pouco, é a maior biodiversidade de táxons fósseis identificados entre as Antilhas, sendo ainda representativo de 45% de todas as espécies antilhanas fósseis registradas para o Quaternário. Porém, a falta de profissionais especialistas no grupo nas diversas coleções científicas de Cuba limita a correta identificação dos espécimes, o que leva ainda a uma grande quantidade de material fóssil ser classificado como indeterminado nessas coleções.

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Figura 3. Restos fósseis de répteis do Quaternário. A) osso mandibular de Anolis (lagarto); B) osso frontal de Gekkonidae (lagartixa); C) úmero de Gekkonidae (lagartixa); D) maxilar de Cyclura (lagarto); E) vértebra torácica de Chilabothrus (cobra); F) pelve de Anolis (incerto); e G) osso composto de Cubophis (cobra – incerto).

O conhecimento das espécies fósseis quaternárias fornece muita informação sobre a composição atual da fauna recente, sendo ainda a explicação mais imediata da diversidade atual de Squamata em Cuba, que conta com 149 espécies endêmicas descritas[37]. Além disso, os fósseis são também evidências das transformações ambientais produzidas pelos períodos glaciais e interglaciais que ocorreram nos últimos milhões de anos[3]. Lamentavelmente, muitos registros permanecem ainda sem identificar, ou possuem identificação apenas ao nível de gênero, contribuindo assim para uma lacuna no entendimento desses processos de diversificação que ocorreram na região.

Contato do autor: ernesto.aranda87@gmail.com

FotosErnesto Aranda Pedroso

Foto GAARlandia: http://www.redciencia.cu/cdorigen/arca/oricub.html

Referências utilizadas:

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Referência sobre a GAARlandia:

Iturralde-Vinent, M., & MacPhee, R.D.E. (1999) Paleogeography of the Caribbean region, implications for Cenozoic biogeography. Bulletin of American Museum of Natural History, 238): 1-95.