Por André Cattaruzzi e Bruno Navarro

Dinossauros e pterossauros estão entre os mais icônicos animais da Era Mesozóica. Diversos estudos[1] indicam que ambos os grupos de répteis possuem uma relação próxima de parentesco, formando o grupo mais inclusivo conhecido pelo nome “singelo” de avemetatarsálios, e teriam divergido da linhagem dos crocodilos ainda no início da Era Mesozóica. No entanto, poucos registros nos fornecem dados acerca das mudanças anatômicas ocorridas na transição que levou à separação desses dois grupos[2].

Um novo estudo liderado por Sterling Nesbitt, pesquisador do Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia (Virginia Tech), publicado na Nature em abril de 2017, descreve uma nova espécie do início do Período Triássico (aproximadamente 247 a 242 milhões de anos atrás ou Ma) da Tanzânia, África, batizada de Teleocrater rhadinus. Curiosamente, os primeiros fósseis dessa espécie foram encontrados no início do século 20, em 1933, e foram estudados na década de 1950; porém, esses materiais nunca foram publicados formalmente até o presente.

O achado inédito traz novas informações sobre o início da irradiação dos chamados avemetatarsálios[3], isto é, os organismos que fazem parte da linhagem de dinossauros e pterossauros. O Teleocrater (Figura 1) é, até o momento, o fóssil mais próximo dos avemetatarsálios, e indica que algumas características antes consideradas como diagnósticas dos dinossauros haviam surgido muito antes, logo após a separação com a linhagem dos crocodilos. Adicionalmente, o estudo permitiu, pela primeira vez, relacionar diversas formas pouco conhecidas, reunidas em um novo grupo chamado de afanossauros.

 

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Figura 1. Reconstrução esquelética de Teleocrater rhadinus. Escala: 25 cm. Por Scott Hartman/Divulgação (2017). Fonte: http://www.skeletaldrawing.com

 

Ancestrais quadrúpedes

Os arcossauros representam o grupo que inclui a maioria dos grandes répteis que dominaram a Era Mesozóica[4]. Eles se dividem basicamente em dois subgrupos: os pseudossúquios e avermetatarsálios[5]. O primeiro destes inclui uma grande diversidade de formas comuns no Período Triássico (período inicial da Era Mesozóica, que se estende de 252 a 201 milhões de anos atrás) e cujos únicos remanescentes vivos são os crocodilos e jacarés atuais (leia mais sobre eles no texto “Verdadeiro ou Falso”). O segundo consiste nos pterossauros e dinossauros (incluindo as aves modernas), assim como demais grupos proximamente relacionados, como os lagerpetídeos e silessauros[6].

Apesar de terem sua origem aproximadamente na mesma faixa de tempo em que viveu o fóssil da Tanzânia, a diversificação dos principais grupos se deu numa fase posterior. Segundo um estudo publicado em 2010, liderado por Steven Brusatte­[1], os pseudossúquios se tornaram os mais diversos arcossauros entre 237 e 202 Ma. Eles ocuparam diversos nichos, incluindo desde predadores terrestres de grande porte (como os rauissúquios, chegando até 8 metros de comprimento), formas aquáticas (como os fitossauros), até organismos herbívoros com pesadas couraças (chamados de aetossauros). Somente após o fim do Triássico é que os dinossauros assumiram o papel dominante que manteriam durante o restante da Era Mesozóica, possivelmente se beneficiando da extinção de diversas linhagens de pseudossúquios[6].

Entretanto, pouco sabemos sobre as transformações que marcaram a linhagem dos avemetatarsálios depois de sua separação com os pseudossúquios, pois os seus membros mais antigos conhecidos já apresentam características bastante especializadas, ou seja, uma anatomia muito similar à dos representantes mais derivados[2]. E é aí que reside a importância da descoberta do Teleocrater, pois ele possui características presentes tanto nos primeiros pterossauros e dinossauros quanto características primitivas que estariam presentes no arcossauro ancestral, algumas muito similares aos pseudossúquios.

O Teleocrater era um animal carnívoro, quadrúpede, com pescoço alongado, e media em torno de três metros de comprimento. A partir do corte de alguns ossos das patas foi possível concluir que esta espécie tinha uma taxa de crescimento elevada, comparável mais aos avemetatarsálios que aos pseudossúquios.

O estudo também apontou semelhanças do organismo africano com outras espécies ainda pouco conhecidas, mas que sabidamente possuíam amplas distribuições geográficas, como o Spondylosoma absconditum (do Rio Grande do Sul, Brasil), o Yarasuchus (Índia) e o Dongusuchus (Rússia). O agrupamento dessas quatro espécies recebeu o nome de afanossauros, que em grego significa “lagartos obscuros”, ou “escondidos”, devido à sua raridade.

O Teleocrater era um animal carnívoro, quadrúpede, com pescoço alongado, e media em torno de três metros de comprimento.

Os pesquisadores ainda fizeram algumas análises de relação de parentesco e, como resultado, descobriram que os afanossauros eram mais próximos dos dinossauros e pterossauros do que dos pseudossúquios. Um fato curioso do estudo é que os afanossauros possuem um padrão para os dois ossos do tornozelo (conhecidos nos répteis como astrágalo e calcâneo) similar ao dos crocodilos (ver Figura 2). Até então, pensava-se que esta morfologia caracterizava somente os pseudossúquios. Indícios desse padrão também estão presentes de forma sutil em alguns silessauros e nos primeiros dinossauros, o que indica que a linhagem dos avemetatarsálios sofreu muitas transformações nesta região do corpo. É provável que estas transformações sejam relacionadas à aquisição de uma postura mais bípede por esses organismos.

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Por Bruno Navarro, com silhuetas de PhyloPic (CC) e mapa por ODSN Plate Tectonic Reconstruction Service (Hay et al., 1999).

Outro aspecto marcante dos afanossauros é a presença de características que eram até então conhecidas somente nos dinossauros e em suas formas mais relacionadas. Entre estas estão a expansão da musculatura que possibilita o fechamento da mandíbula (adução), o pescoço alongado (o chamado “pescoço de ave”) e as vértebras do tronco diferenciadas (possuem articulações acessórias que não são conhecidas para outros grupos de organismos). Além disso, a partir dos dados referentes às longas patas anteriores de Teleocrater e silessauros, Nesbitt e colaboradores interpretam que o ancestral comum dos avemetatarsálios seria quadrúpede. Outra novidade deste estudo é que uma nova comparação da diversidade morfológica indica que os avemetatarsálios eram mais diversos e mais amplamente distribuídos no mundo durante o Triássico do que se pensava.

Além disso, a partir dos dados referentes às longas patas anteriores de Teleocrater e silessauros, Nesbitt e colaboradores interpretam que o ancestral comum dos avemetatarsálios seria quadrúpede.

A evolução e diversificação iniciais dos arcossauros no Triássico têm sido impulsionadas a partir de uma série de recentes estudos e descobertas. Novos fósseis estão ajudando a iluminar esse capítulo ainda pouco conhecido de sua história evolutiva. Este período da história da vida na Terra é crucial, pois foi durante ele que várias linhagens que deram origem a grupos atuais começaram a surgir, como tartarugas, crocodilos, mamíferos e os próprios dinossauros, que permanecem até hoje entre nós como uma de suas linhagens mais bem-sucedidas: as aves.

Saiba mais sobre este estudo:

Nesbitt, S.J., Butler, R.J., Ezcurra, M.D., Barrett, P.M., Stocker, M.R., Angielczyk, K.D., Smith, R.M H., Sidor, C.A., Niedźwiedzki, G., Sennikov, A.G., Charig, A.J. 2017. The earliest bird-line archosaurs and the assembly of the dinosaur body plan. Naturedoi:10.1038/nature22037

Demais referências utilizadas:           

[1] Brusatte, S. L., Benton, M. J., Lloyd, G. T., Ruta, M., & Wang, S. C. 2010. Macroevolutionary patterns in the evolutionary radiation of archosaurs (Tetrapoda: Diapsida). Earth and Environmental Science Transactions of the Royal Society of Edinburgh101(3-4), 367-382.

[2] Nesbitt, S.J. 2011. The early evolution of archosaurs: relationships and the origin of major clades. Bulletin of the American Museum of Natural History. 352: 1–292.

[3] Nesbitt, S. J., Sidor, C. A., Irmis, R. B., Angielczyk, K. D., Smith, R. M. H. and Tsuji, L. A. 2010. Ecologically distinct dinosaurian sister group shows early diversification of Ornithodira. Nature 464(7285):95-98.

[4] Sereno, P.C. 1991. Basal Archosaurs: Phylogenetic Relationships and Functional Implications. Journal of Vertebrate Paleontology. 11 (Memoir 2): 1–53. 

[5]  Sereno, P.C.; Arcucci, A.B. 1994. Dinosaurian precursors from the Middle Triassic of Argentina: Marasuchus lilloensis, gen. nov. Journal of Vertebrate Paleontology. 14 (1): 53–73.

[6] Langer, M. C.; Nesbitt, S. J.; Bittencourt, J. S.; Irmis, R. B. 2013. Non-dinosaurian Dinosauromorpha. Geological Society, London, Special Publications, 379, 157–186.