Um esqueleto desarticulado de um mastodonte (primo distante dos elefantes) com ossos partidos e lascados, uma presa de marfim cravada verticalmente nos antigos sedimentos, pedras pesadas com marcas de impactos e as lascas resultantes no seu entorno. Essa cena inusitada foi encontrada em um sítio paleontológico próximo a San Diego, na Califórnia, Estados Unidos.

Em um recente artigo publicado na revista Nature, uma equipe de onze pesquisadores, liderada por Steven Holen, do Center for American Paleolithic Research, apresentou a proposta de que humanos usaram essas pedras para partir os ossos. Se confirmado, esse fato pode revolucionar o que sabemos atualmente sobre a ocupação das Américas: humanos já teriam chegado ao continente 130.000 anos atrás! Essa nova data representa uma diferença de dezenas de milhares de anos antes do que se pensava até então.

A chegada ao Novo Mundo

Nas últimas décadas, fortes evidências apontavam que os primeiros humanos haviam chegado às Américas por volta de 16.000 anos atrás, provindos da Ásia através do Estreito de Bering, no Alasca. A retração das geleiras que cobriam a América do Norte permitiu a migração para o sul, até alcançar a extremidade austral da América do Sul entre 14.000 e 15.000 anos atrás, com base nas datações do famoso sítio arqueológico de Monte Verde no Chile, com idade aproximada de 14.400 anos. Nesta hipótese, todos os ameríndios seriam descendentes de uma população originária da Ásia.

Entretanto, diversas evidências já apontavam que tal visão é incompleta, e esse campo da Evolução Humana sempre representou foco de intensos debates entre os especialistas do tema. Um exemplo disso foi um estudo publicado na Nature em 2015, liderado por Pontus Sklogund, da Harvard Medical School, nos Estados Unidos, que revelou similaridades genéticas de alguns índios amazônicos com povos da Papua-Nova Guiné e aborígines australianos, o que indicaria que as populações nativas das Américas descendem de mais de uma população ancestral1,2.

Dado que nossa espécie (Homo sapiens) teria deixado a África somente em torno de 60.000 anos atrás e se a presença humana nas Américas há 130.000 anos for confirmada por achados adicionais, resta a pergunta: quem eram eles?

Essa mesma relação entre os humanos do Novo Mundo (nome dado ao continente americano) e as populações asiáticas já havia sido descrita para sítios antropológicos brasileiros. A descoberta de um crânio humano – apelidado de “Luzia” – em Lagoa Santa, Minas Gerais, pode suportar essa hipótese3,4. Luzia teria vivido há cerca de 13.000 anos e seu fóssil foi estudado pelo biólogo Walter Alves Neves, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Neves encontrou traços que lembram os atuais aborígenes da Austrália e África, e formulou a teoria de que o povoamento da América teria sido feito por duas correntes migratórias de caçadores-coletores, ambas vindas da Ásia, provavelmente pelo estreito de Bering. Cada corrente migratória, no entanto, seria composta por grupos humanos distintos. A primeira, com os chamados aborígines americanos, teria ocorrido há 14.000 anos, e os membros teriam aparência semelhante aos de Luzia. Já a segunda  onda migratória teria sido a dos povos asiáticos, há cerca de 11.000 anos, dos quais descendem atualmente diversas tribos indígenas da América.

Não podemos também deixar de lado as ideias propostas pela arqueóloga brasileira Niède Guidon, com base em ferramentas de pedra encontradas na Serra da Capivara, Piauí, nordeste brasileiro, de que humanos habitavam a região há pelo menos 20.000 anos5. Datações de carvão de possíveis fogueiras poderiam estender a presença humana para até 48.000 anos6. Esta população piauiense teria vindo da África (que estava mais próxima da América do Sul na época e o nível do mar era mais baixo), possivelmente via embarcações. Vale ressaltar que os trabalhos de Guidon até o momento não foram aceitos por muitos pesquisadores estrangeiros.

Neves encontrou traços que lembram os atuais aborígenes da Austrália e África, e formulou a teoria de que o povoamento da América teria sido feito por duas correntes migratórias de caçadores-coletores, ambas vindas da Ásia, provavelmente pelo estreito de Bering.

As novas evidências

O recente artigo de Steven Holen e colaboradores traz os resultados de uma minuciosa análise do sítio do Mastodonte (Figura 1). Fragmentos de ossos se distribuíam em torno de duas grandes pedras, que possuem marcas e cicatrizes similares ao que ocorre quando um martelo atinge uma bigorna de pedra. Além disso, os dois ossos da coxa do mastodonte estavam quebrados, sendo que um fragmento possui evidência de percussão. Várias lascas de osso se encaixam entre si, o que favorece a hipótese de que o osso teria se partido por um forte impacto.

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Figura 1. Escavação em San Diego, Califórnia, EUA. Legenda: 281, bigorna; 286, 288 e 292, ossos quebrados.

Os autores ressaltam que nenhum predador conhecido da época teria condições de quebrar dessa forma um osso da coxa de mastodonte. Eles também descartam a possibilidade de pisoteio da carcaça devido à presença de vários ossos frágeis intactos. E, por último, a presença das pedras com ossos de diferentes tamanhos é contrária à ideia de que estes elementos foram enterrados conjuntamente por uma ação física como, por exemplo, um fluxo de água. A carcaça foi enterrada no meio de silte e, portanto, descarta a possibilidade um transporte intenso de pedras, ossos, e demais peças grandes.

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Figura 2. Experimento realizado pelos pesquisadores para simular como os ossos teriam se partido caso fossem perpetrados por humanos, com base nas ferramentas disponíveis há 130.000 anos.

Para estudar as marcas nas pedras e nos ossos do sítio paleontológico, os autores realizaram um teste (Figura 2) onde quebraram ossos de elefante e vacas utilizando-se da tecnologia disponível para os humanos primitivos: pedras, usadas como martelos e bigornas. O padrão de quebra dos ossos no experimento foi similar ao verificado para os ossos do mastodonte, o que reforçou a ideia de que humanos partiram os ossos e dentes dessas criaturas gigantes provavelmente para extrair tutano e fabricar ferramentas (Figura 3). Entretanto, a maior surpresa veio com a datação dos achados. Utilizando um método de datação com isótopos de Urânio e comparando o ambiente passado ao ambiente natural, os cientistas concluíram que o mastodonte foi soterrado há aproximadamente 130.000 anos.

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Figura 3. Comparação entre fragmentos encontrados no sítio paleontológico de San Diego, Califórnia, EUA (A) e os resultados dos testes realizados pelos pesquisadores em ossos atuais (B). No estudo, os pesquisadores ressaltam a similaridade nos padrões de fraturas nos ossos quebrados.

Nativos americanos?

Dado que nossa espécie (Homo sapiens) teria deixado a África somente em torno de 60.000 anos atrás e se a presença humana nas Américas há 130.000 anos for confirmada por achados adicionais, resta a pergunta: quem eram eles? Teria outro hominídeo sido o pioneiro no nosso continente? Enquanto essas questões permanecem ainda sem resposta, os pesquisadores do surpreendente estudo ressaltam que novas pesquisas precisam ser feitas, a fim de procurar mais evidências de presença humana em sítios bem mais antigos, para que se possa portanto corroborar essa hipótese radical.

Autores André Cattaruzzi e Bruno Navarro

Saiba mais sobre este estudo:

Holen, S. R., Deméré, T. A., Fisher, D. C., Fullagar, R., Paces, J. B., Jefferson, G. T., Beeton, J. M., Cerutti, R. A., Rountrey, A. N., Vescera, L. & Holen, K. A. (2017). A 130,000-year-old archaeological site in southern California, USA. Nature544(7651), 479-483.

Vídeo Relatando a Descoberta: https://www.youtube.com/watch?v=HyfSsgCrjb0

 Referências adicionais

 [1] Skoglund, P., & Reich, D. (2016). A genomic view of the peopling of the Americas. Current Opinion in Genetics & Development41, 27-35.

[2] Skoglund, P., Mallick, S., Bortolini, M. C., Chennagiri, N., Hünemeier, T., Petzl-Erler, M. L., Salzano, F. M., Patterson, N. & Reich, D. (2015). Genetic evidence for two founding populations of the Americas. Nature525(7567), 104-108.

[3] Feathers, J., Kipnis, R., Piló, L., Arroyo, M. & Coblentz, D. (2010). How old is Luzia? Luminescence dating and stratigraphic integrity at Lapa Vermelha, Lagoa Santa, Brazil. Geoarchaeology 25 (4): 395–436.

[4] Neves, W.; Piló, L. B. (2008). O Povo de Luzia. 1. ed. São Paulo: Editora Globo, 336p.

[5] Lahaye, C., Hernandez, M., Boëda, E., Felice, G. D., Guidon, N., Hoeltz, S., Lourdeau, A., Pagli, M., Pessis, A., Rasse, M. & Viana, S. (2013). Human occupation in South America by 20,000 BC: the Toca da Tira Peia site, Piauí, Brazil. Journal of Archaeological Science40(6), 2840-2847.

[6] Guidon, N., & Arnaud, B. (1991). The chronology of the New World: two faces of one reality. World Archaeology23(2), 167-178.