Por Daniella P. F. França e Ana Bottallo

A evolução é um processo que ocorre gradualmente ao longo do tempo, tanto ao nível de espécie (microevolução) quanto ao nível de famílias ou grupos (macroevolução). O processo evolutivo pode ser percebido ao longo das gerações, principalmente através da seleção natural, que consiste na fixação genética de uma determinada característica, expressa fenotipicamente ou não, na população. A seleção natural está intimamente associada às pressões ambientais, as quais irão direcionar a fixação desses genes. O primeiro naturalista a observar e entender esse fenômeno de maneira sistemática foi o britânico Charles Darwin (Figura 1), que constatou que “não são as espécies mais fortes que sobrevivem, nem as mais inteligentes, e sim as mais suscetíveis a mudanças”.

 

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Figura 1. Retrato de Charles Darwin (1809-1882) em seus últimos anos de vida. A imagem está virada (a verruga de Darwin ficava no lado direito de seu nariz). Por J. Cameron. Wikipedia.org.

Para chegar a essa conclusão, Darwin passou décadas estudando formas de vida do mundo todo, muitas delas coletadas em sua viagem de quase cinco anos a bordo do navio H. M. S. Beagle (Figura 2). A missão da viagem, que levou o naturalista de apenas 22 anos rumo a uma das maiores descobertas científicas da História, era mapear a costa da América do Sul para atualizar as cartas náuticas britânicas. Mal sabia o jovem inglês que essa expedição marcaria sua vida.

 

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Figura 2. H. M. S. Beagle. R. T. Pritchett – The Popular Science Monthly, Volume 57 p. 87, reproduction of frontispiece from Darwin, Charles (1890), Journal of researches into the natural history and geology of the various countries visited by H.M.S. Beagle etc. (First Murray illustrated edition), London: John Murray (The Voyage of the Beagle).

Um dos lugares mais emblemáticos visitados por Darwin foram as Ilhas Galápagos, um arquipélago de ilhas vulcânicas localizadas no Oceano Pacífico, a cerca de 1000 quilômetros da costa sul-americana, pertencente ao território marinho do Equador. Uma das características que tornam esse arquipélago um “laboratório” natural para estudos evolutivos é o isolamento geográfico das espécies habitantes das ilhas vulcânicas.

O primeiro naturalista a observar e entender esse fenômeno de maneira sistemática foi o britânico Charles Darwin, que constatou que “não são as espécies mais fortes que sobrevivem, nem as mais inteligentes, e sim as mais suscetíveis a mudanças”.

Os organismos ali presentes descendem de linhagens continentais que, no passado, chegaram ao local por migração, flutuação em objetos pelo mar ou por dispersão aérea. Como as rochas vulcânicas, no momento de sua gênese, são um ambiente ainda estéril, as pressões ambientais seletivas que atuaram sobre os organismos que ali chegaram são completamente diferentes das pressões observadas em um ambiente continental. Assim, essas linhagens possuem uma espécie de “marco zero” evolutivo, o que torna o arquipélago um lugar único para estudos evolutivos (todas as ilhas vulcânicas possuem essa característica). Foi a partir dessas observações, e com um incrível conhecimento geológico, que o jovem naturalista pôde analisar as espécies presentes em Galápagos sob um ponto de vista diferente, tirando assim suas conclusões para a elaboração da obra “A Origem das Espécies” (Figura 3).

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Figura 3. Primeira edição do livro “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin (1869). Wiki Commons.

Após muitos anos de sua visita ao arquipélago (e depois da publicação da grande obra) e enorme dedicação à análise do material lá coletado, Darwin percebeu algo interessante sobre os pássaros locais: a forma e tamanho dos bicos dos tentilhões-das-Galápagos variavam de acordo com a ilha em que habitavam. 

 

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Infográfico: Ana Bottallo

 

As espécies com bicos delgados e afiados, por exemplo, são mais adaptadas para uma alimentação insetívora, enquanto outras, da mesma família, que apresentam bicos maiores e recurvados, alimentam-se principalmente de frutos. Conhecendo, no entanto, a história geológica das Galápagos, Darwin concluiu que o arquipélago foi colonizado inicialmente por uma única espécie de tentilhão, que posteriormente colonizou as demais ilhas.

Foi a partir dessas observações, e com um incrível conhecimento geológico, que o jovem naturalista pôde analisar as espécies presentes em Galápagos sob um ponto de vista diferente, tirando assim suas conclusões para a elaboração da obra “A Origem das Espécies”

Em um determinado ambiente, onde a oferta de frutos ou de insetos era maior, um formato de bico mais vantajoso para o melhor aproveitamento dos recursos ali disponíveis fixava-se naquela população. Essa vantagem favoreceu o crescimento e reprodução deste grupo até que a população toda apresentasse o mesmo tipo de bico. Nesse momento, ocorre a diferenciação das populações em espécies distintas, em um processo chamado de especiação, ou seja, quando duas ou mais espécies são formadas a partir de uma espécie ancestral preexistente.

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Infográfico: Bruno Navarro

 

A Teoria da Evolução apresentada por Darwin foi elaborada a partir de inúmeros casos de estudo feitos pelo próprio naturalista ao longo de mais de meio século de pesquisa. Os tentilhões-das-Galápagos, para muitos estudiosos, são considerados como um “modelo-chave” para a grande ideia evolutiva de Darwin que revolucionou nossa compreensão sobre a evolução das espécies.

Para saber mais:

The Complete Works of Darwin Online – Biography. Darwin online.org.uk. Dobzhansky 1973