Os fósseis são, para nós, a principal janela que mostra como eram os organismos no passado. Alguns podem ser extraordinariamente bem preservados e nos trazer informações únicas que nos permitem vislumbrar curiosos acontecimentos da sua história, como hábitos de vida, alimentação e interações ecológicas. Em 2013, um time de pesquisadores liderados por Vincent Fernandez da Universidade de Witwatersrand em Johannesburgo, África do Sul, descreveu um incrível fóssil de uma toca fossilizada com dois curiosos ocupantes que permaneceram nela enterrados pelos últimos 250 milhões de anos (Figura 1).

O nódulo da toca foi encontrado em 1975. Sabia-se somente que havia fósseis lá dentro devido a algumas pequenas partes expostas nas margens do bloco. Mas a descoberta fascinante veio depois: os pesquisadores levaram o achado para o Centro Europeu de Radiação de Sincrotron (ou, na sigla em inglês, European Synchrotron Radiation Facility) (Figura 2) em Grenoble, na França, onde através do escaneamento da peça, como o que ocorre quando fazemos um raio-X, foi possível visualizar todo o seu interior em grande detalhe e, melhor, sem ter que passar pelo longo processo de preparação manual, o que pode muitas vezes danificar o fóssil.

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Figura 1. Os dois animais separados digitalmente. À esquerda, o Thrinaxodon e à direita, o Broomistega.

As rochas datadas do período Triássico da África do Sul, logo após a grande extinção ao final do Permiano (há cerca de 252 milhões de anos), já renderam diversas tocas fossilizadas, cavadas por habitantes de um passado remoto que possivelmente se entocavam para amenizar os efeitos do clima quente e árido da época. As tocas foram preservadas devido ao seu preenchimento por sedimentos carreados, como por exemplo a lama trazida por uma inundação. Em algumas delas, foram encontrados restos de seus prováveis construtores. Entretanto, no fóssil em questão, dois animais praticamente inteiros estavam preservados em um nódulo de 28 centímetros de comprimento por uma largura máxima de 15 centímetros. O primeiro animal foi descrito pelos pesquisadores como sendo um Thrinaxodon, o provável cavador da toca. O intruso era um anfíbio do gênero Broomistega.

Entretanto, no fóssil em questão, dois animais praticamente inteiros estavam preservados em um nódulo de 28 centímetros de comprimento por uma largura máxima de 15 centímetros.

O Thrinaxodon pertence ao grupo dos cinodontes, grupo que inclui os próprios mamíferos atuais e diversos grupos relacionados. A espécie sul-africana apresenta características que o ligam a nós, mamíferos, como a diferenciação dos dentes em incisivos, caninos, pré-molares e molares, cada um modificado para uma função específica na alimentação.

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Figura 2. Vista do Centro Europeu de Radiação de Sincrotron. Créditos: Ana Bottallo.

Já o Broomistega era um animal semi-aquático, do grupo dos temnospôndilos, provavelmente relacionados aos anfíbios atuais. O indivíduo encontrado nessa toca era um juvenil, fato observado pelos pesquisadores devido ao seu tamanho reduzido e menor grau de ossificação em comparação a outros espécimes do gênero. Outra curiosidade é que, apesar de ser um indivíduo jovem, a criatura apresenta diversas fraturas nas costelas do lado direito, sendo inclusive encontrados calos (cicatrizes ósseas) em algumas, indicando que o animal sofreu em algum momento de sua breve vida algum acidente ou tentativa de predação, mas sobreviveu a ponto de os seus ossos terem se reparado novamente.

Mas como esses dois animais foram parar juntos na toca? Os pesquisadores descartaram a hipótese de que o Broomistega tenha sido carregado por uma inundação até a toca, pois esta era estreita demais e pelo fato do esqueleto do animal estar inteiramente articulado. A falta de marcas de dentes também elimina a hipótese de o cinodonte ter caçado o jovem temnospôndilo e o levado à sua toca. Pela posição dos esqueletos, também se desconsiderou a ideia de que os animais teriam morrido muito tempo antes da inundação que os soterrou. Qual seria a explicação mais plausível então?

Esse tipo de comportamento de hibernação seria útil para enfrentar o clima mais rigoroso e é evidenciado pela posição curvada dos esqueletos de Thrinaxodon achados em tocas.

Para os autores, é possível que o Thrinaxodon tenha tolerado a entrada do intruso. Talvez isso tenha ocorrido porque o cinodonte estivesse em um período de hibernação (que deveria ser breve com base nas análises das linhas de crescimento dos ossos) ou em torpor (redução da taxa metabólica, como fazem as marmotas atualmente). Esse tipo de comportamento de hibernação seria útil para enfrentar o clima mais rigoroso e é evidenciado pela posição curvada dos esqueletos de Thrinaxodon achados em tocas.

Uma coisa é certa: esta interação deve ter sido breve e teve um final infeliz para os dois animais. Entretanto, foi justamente o evento trágico, que provavelmente os matou, que nos possibilita ter esse breve vislumbre de um mundo tão distante de nós.

Autor André Cattaruzzi

 Saiba mais sobre esse estudo:

Fernandez, V., Abdala, F., Carlson, K. J., Rubidge, B. S., Yates, A., & Tafforeau, P. (2013). Synchrotron reveals Early Triassic odd couple: injured amphibian and aestivating therapsid share burrow. PloS one8(6), e64978.