Por Ana Bottallo

Se você tem alguma queda por animais com alto grau de “fofolência”, com certeza já produziu “ahhhhs” e “ohhhhs” ao ver uma imagem de duas lontras nadando de mãozinhas dadas. Esses simpáticos mamíferos de hábitos semiaquáticos, altamente sociáveis e adoráveis, pertencem à família Mustelidae. No Brasil, além da lontra-neotropical (Lontra longicaudis), temos também a ariranha (Pteronura brasiliensis), que é bem maior, podendo chegar até 1,8m (em geral, as espécies de lontra variam de 55cm a 1,2m), encontrada no Pantanal e na bacia do rio Amazonas, chegando até o norte da América do Sul. Ambas as espécies são de água-doce. Atualmente, a ariranha está classificada como em perigo pela IUCN (principal órgão de avaliação da conservação das espécies de seres vivos), enquanto a lontra-neotropical é classificada como quase ameaçada.

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Lontras são animais sociáveis e brincalhões. Crédito foto: Blog Conservation International.

As lontras (nome popular dado a um enorme conjunto de espécies) têm uma distribuição global, estando presentes em praticamente todos os continentes, exceto Oceania e Antártica. A lontra marinha comum ou lontra-europeia (Lutra lutra), mesmo apresentando uma distribuição cosmopolita, não se salvou de estar, há alguns anos, ameaçada de extinção em determinadas regiões. Já a lontra marinha da Califórnia (Enhydra lutris), altamente procurada e caçada por sua pele, teve sua população reduzida de 300.000 para pouco mais de 2.000 indivíduos, sendo classificada como à beira de extinção, no final do século 19. Uma subespécie, a lontra marinha do Sudeste (Enhydra lutris nereis), foi quase completamente extinta, com apenas 50 indivíduos reportados ao final do século 20. Além do comércio de sua pele, as lontras marinhas eram caçadas por considerarem que elas representavam uma ameaça para os peixes (principal componente de sua dieta) e para a indústria da pesca. E não era só isso: a destruição do habitat, na primeira metade do século 20, também levou a uma redução drástica na população, padrão que se repetiu também em diversos outros locais no mundo.

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Lontras são carnívoras e excelentes caçadoras, alimentando-se principalmente de peixes. Crédito foto: Charlie Hamilton James, lontra de água-doce no Parque Nacional Teton Rio da Serpente, Wyoming, Estados Unidos.

A lontra marinha da Califórnia, altamente procurada e caçada por sua pele, teve sua população reduzida de 300.000 para pouco mais de 2.000 indivíduos, sendo classificada como à beira de extinção, no final do século 19

Felizmente, essa situação se reverteu, e graças aos esforços do programa de Conservação do Aquário da Baía de Monterey (Monterey Bay Aquarium’s Conservation, em inglês), a população atual de lontras marinhas na Califórnia é de 125.000 indivíduos (embora ainda seja considerada em perigo pela IUCN). Os pesquisadores do Aquário vêm trabalhando com a conservação de lontras marinhas desde 1984, e contam hoje com tecnologias de ponta para tratamento, reabilitação e monitoramento das lontras, através do uso de radiotransmissores.

Sea Otter (Enhydra lutris) researcher Karl Mayer drying off rescued pup after bathing it, Monterey Bay Aquarium, Monterey Bay,
Lontras marinhas (Enhydra lutris) resgatadas são tratadas no Aquário da Baía de Monterey. Crédito foto: Minden Pictures/Alamy Stock Photo.

A conservação da lontra marinha, ainda segundo os pesquisadores, contribui também para a manutenção favorável e o equilíbrio ecológico das matas de manguezais e estuários do litoral norte-americano. É uma ação conservacionista que reflete em diversas espécies, não só na lontra.

A lontra-de-nariz-peludo

Já a dezenas de milhares de quilômetros de distância da costa californiana, nas florestas alagadas do Lago Tonle Sap, no Camboja, uma outra espécie de lontra que já tinha sido considerada como extinta teve sua população redescoberta: a lontra-de-nariz-peludo (Lutra sumatrana).

Antes conhecida em todo o Sudeste Asiático, essa espécie não era encontrada na natureza desde a década de 90. Sua presença tinha sido ameaçada não só pela caça ilegal, mas também pela destruição do seu habitat natural, do qual elas são extremamente dependentes. Agora, com a redescoberta da população, políticas de conservação e de proteção da espécie são necessárias.

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Os pelos ao redor das narinas são uma das principais características diagnósticas da lontra-de-nariz-peludo (Lutra sumatrana) comparada às espécies euroasiáticas. Crédito: Conservation International.

Mas é aí que surgem outros problemas: enquanto alguns países apresentam políticas e leis de conservação mais fáceis e menos burocráticas, outros, como é o caso do Camboja, são mais complexos e de difícil implementação, enfrentando barreiras no governo e também na própria população, que não entende o motivo de preservar uma espécie que antes era considerada como “ameaça”.

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Dois juvenis de lontras-de-nariz-peludo (Lutra sumatrana) encontrados na casa de um caçador, no Camboja. Crédito: Conservation International.

Foi aí que a organização mundial Conservation International entrou com a ação de preservação da espécie e do seu ecossistema. Por se tratar de uma região de extrema pobreza, os pesquisadores da organização implementaram uma política de preservação completamente diferente daquela apresentada no Aquário da Califórnia: atuaram diretamente com a população local, criando um grupo de “embaixadores das lontras”, cujas atividades incluíam ações-chave para a conservação da espécie e também de áreas consideradas como vulneráveis. Além da educação ambiental praticada com a população, o órgão implementou novas leis e políticas conservacionistas, a criação de zonas de conservação específicas, e também orientou as comunidades de pescadores locais a buscarem outras formas de subsistência mais sustentáveis. A atuação direta da população teve um efeito positivo, uma vez que esta se sentiu engajada e incluída em um programa governamental, e a população da lontra voltou a crescer. O sucesso da ação do órgão foi tanto que muitos pescadores, antes responsáveis pela caça ilegal da lontra, agora são “patrulheiros” e monitoram as populações nas suas comunidades.

Antes conhecida em todo o Sudeste Asiático, a lontra-de-nariz-peludo não era encontrada na natureza desde a década de 90. Agora, com a redescoberta da população, políticas de conservação e de proteção da espécie são necessárias.

Em ambos os casos, tanto o da lontra marinha da Califórnia quanto da lontra-de-nariz-peludo, foram implementados projetos para conservação de uma espécie que pode ser considerada chave, uma vez que ela é altamente dependente do seu meio, e a preservação da mesma, juntamente com o seu habitat natural, possibilita também a preservação de diversas outras espécies. Embora as abordagens tenham sido bem distintas, os dois exemplos mostram que não importa se existem ou não recursos ou tecnologias de ponta: quando existe a vontade de preservar, o engajamento populacional e as ações públicas são o que fazem a diferença. Resta a nós o papel de buscar meios cada vez mais eficientes de conciliar o uso dos recursos naturais com a preservação do meio ambiente e lembrar, sempre, que existem muitas espécies que dependem do ambiente mais até do que a gente. É nosso dever protege-las.

Saiba mais sobre a conservação das lontras:

Notícia original BBC

Pró-carnívoros (grupo de conservação de mamíferos carnívoros, incluindo lontras, no Brasil)

IUCN Redlist (órgão responsável por classificar as espécies ameaçadas de extinção)

Monterey Bay Aquarium 

Conservation International 

Grupo de conservação de lontras internacional