Chamada popularmente e na língua indígena como “kambô” (e demais variações, “cambô” ou “kampu”), a espécie de perereca Phyllomedusa bicolor (figura 1) tornou-se conhecida devido a um ritual praticado pelos povos indígenas amazônicos, especialmente no Acre e em Rondônia: a vacina do sapo. As pererecas da espécie Phyllomedusa bicolor apresentam toxinas na pele que funcionam como um antibiótico natural, protegendo a sua frágil pele contra infecções por microrganismos. Essas toxinas também servem de defesa contra predadores.

 

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Figura 1. “Kambô” Phyllomedusa bicolor. Foto: Daniella França.

Os povos indígenas buscam inconscientemente essa mesma ação bactericida, porém, por um caminho diferente. Com o intuito inicial de retirar a “panema” (quando os indígenas e moradores locais tem má sorte na caça de subsistência e permanecem sem conseguir abater nenhum animal por dias) e melhorar a saúde de quem recebe a “vacina”, a toxina extraída das glândulas localizadas no dorso do animal (figura 2) é espalhada sobre pequenos ferimentos feitos propositadamente na pele através de queimaduras (figura 3), geralmente nos braços (em homens) e nas pernas (em mulheres)[1]. Ao receber a vacina, o indivíduo passa por um quadro de intoxicação que pode durar entre 15 a 30 minutos, apresentando sintomas que variam desde náuseas e vertigem até vômito, calor intenso e dores no estômago. As pessoas que passam por esse processo relatam que, após o efeito agudo da intoxicação, sentem uma enorme sensação de bem-estar[1], e que permanecem por muitos meses sem adoecer.

Com o intuito inicial de retirar a “panema” (…) a toxina (…) é espalhada sobre pequenos ferimentos feitos propositadamente na pele através de queimaduras.

A vacina do sapo tem se tornado cada vez mais conhecida fora da Amazônia, e a toxina da P. bicolor tem sido alvo de biopirataria dentro do Brasil e também no exterior. Com a promessa de fortalecimento do sistema imunológico e cura de doenças, as paletas de madeira com a substância são vendidas no mercado negro.

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Figura 2. Extração da toxina de glândulas de veneno localizadas após os olhos do animal. Foto: Site BBC Brasil.

Além do crime ambiental envolvido nessa prática (a comercialização de animais protegidos pelo IBAMA ou de seus derivados – produtos, pele, carne, couro, membros etc. – é crime no Brasil), há ainda um enorme risco de intoxicação fatal, visto que as “vacinas” são aplicadas em pacientes por pessoas inexperientes, de fora da Amazônia.

A vacina do sapo tem se tornado cada vez mais conhecida fora da Amazônia, e a toxina da P. bicolor tem sido alvo de biopirataria dentro do Brasil e também no exterior.

Em 2008, foi noticiado um óbito na cidade de Pindamonhangaba, no Estado de São Paulo, após um homem ter recebido a aplicação sem o devido conhecimento da “vacina”[2]. Portanto, é muito importante ressaltar que a “vacina” pode ser perigosa se aplicada sem a presença de uma pessoa experiente nesta prática.

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Figura 3. Aplicação da toxina da Phyllomedusa bicolor em pequenos ferimentos feitos sobre a pele. Foto: Paulo Sérgio Bernarde.

Vários estudos sobre as vias de ação das toxinas e dos peptídeos (proteínas constituintes da toxina da P. bicolor) do kambô nos seres humanos vêm sendo desenvolvidos por instituições de pesquisa brasileiras, a fim de entender um pouco mais sobre essa substância e suas possíveis ações. Em laboratório, alguns dos resultados observados foram que os peptídeos isolados de espécies do gênero Phyllomedusa de fato possuem ação contra alguns parasitas, como a bactéria Pseudomonas aeruginosa (responsável pela pneumonia e outras doenças) e os agentes causadores da Leishmaniose (Leishmania amazonenses), malária (Plasmodium falciparum) e doença de Chagas (Trypanosoma cruzi), além de apresentarem eficácia na inibição do vírus da AIDS. Além disso, compostos da toxina tem potencial de cura contra a depressão, o que talvez explique o motivo pelo qual tantas pessoas relatam se sentir tão bem após a “vacina”.

Estas pesquisas, no entanto, ainda não foram concluídas, e esse tema merece ainda muitos estudos. De qualquer forma, essas e outras histórias nos mostram quão importante é o conhecimento da biodiversidade, a conservação do meio ambiente e os investimentos em pesquisa científica. Assim como o kambô, milhares de outras espécies da nossa tão diversa fauna e flora podem guardar a cura para muitas doenças da humanidade[3].

Além disso, compostos da toxina tem potencial de cura contra a depressão, o que talvez explique o motivo pelo qual tantas pessoas relatam se sentir tão bem após a “vacina”.

Agradeço ao Prof. Dr. Paulo Bernarde pelas valiosas informações sobre o tema e cessão da imagem da aplicação da vacina.

Autora Daniella França

Saiba mais em:

[1] Bernarde, 2017Acessado em 07/11/2017.

[2] Menocchi, 2008. Acessado em 07/11/2017.

[3] Brand, et al. 2006. Novel dermaseptins from Phyllomedusa hypochondrialis (Amphibia). Biochem. Biophys Res. Commun. 347: 739-746. (Link para o artigo https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16844081).