Erythrolamprus aesculapii é uma espécie de serpente terrestre de porte médio, raramente ultrapassando um metro de comprimento. Distribui-se por todo Domínio do Cerrado e em algumas áreas de Mata Atlântica no Nordeste Brasileiro. Descrita e estudada pela primeira vez pelo “pai” da Taxonomia Moderna Carl von Linné, conhecido mais pela forma latinizada de seu nome, Carolus Linnaeus, a espécie de coral-falsa Erythrolamprus aesculapii é uma das melhores mímicas entre os animais vertebrados.

Com seus anéis de cor preta, branca e vermelha completos, circulando todo o comprimento de seu corpo, esta espécie inofensiva de coral-falsa, amplamente distribuída pelo Brasil, é facilmente confundida com as corais-verdadeiras do gênero . O padrão de “coloração coral” é um tipo de aposematismo (coloração chamativa que indica perigo), evitado por predadores que possuem visão colorida, alertados sobre o perigo que aquela potencial presa possa oferecer. Animais aposemáticos são geralmente venenosos ou peçonhentos, ou são mímicos de animais venenosos ou peçonhentos. Em relação às corais, uma das teorias mais aceitas é a de que as serpentes não-peçonhentas (ou que possuem peçonha apenas para auxiliar na paralisação da presa no momento da predação) mimetizam serpentes peçonhentas, vantagem adaptativa que confunde o possível predador e impede sua aproximação.

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Figura 1: Indivíduo de Erythrolamprus aesculapii de Rui Barbosa, região localizada na Mata Altântica baiana.

Em relação às corais, uma das teorias mais aceitas é a de que as serpentes não-peçonhentas (ou que possuem peçonha apenas para auxiliar na paralisação da presa no momento da predação) mimetizam serpentes peçonhentas, vantagem adaptativa que confunde o possível predador e impede sua aproximação.

Além dos anéis que circulam o corpo, as serpentes da espécie E. aesculapii podem ser confundidas com as do gênero Micrurus por ter cauda curta em relação às outras corais falsas brasileiras e a cabeça pouco destacada do tronco (a maioria das falsas corais, principalmente as do gênero Oxyrhopus, são facilmente identificadas por terem olhos grandes e avermelhados, cabeça destacada do corpo e cauda longa e afilada).

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Figura 2: Serpente de coral-falsa da espécie Oxyrhopus trigeminus: olhos grandes e vermelhos, cabeça destacada do corpo, anéis incompletos e cauda longa e fina.

Seus olhos negros, apesar de grandes quando comparados aos de uma Micrurus, também ajudam a confundir, uma vez que se misturam às escamas negras da cabeça, dificultando sua visualização, assim como acontece nas corais-verdadeiras. Alguns indivíduos de E. aesculapii ainda “imitam” também o comportamento de defesa das Micrurus de esconder a cabeça embaixo do corpo enrodilhado ou do substrato (folhas, troncos, etc.) e enrolar a cauda. Infelizmente, o “show de imitação” mostrado por essa espécie de serpente acaba sendo um problema quando em contato com o ser humano. Assim como os outros animais, as pessoas tendem a se confundir ao encontrar indivíduos de E. aesculapii, e acabam matando-as por medo de que seja uma cobra-coral verdadeira.

Alguns indivíduos de E. aesculapii ainda “imitam” também o comportamento de defesa das Micrurus de esconder a cabeça embaixo do corpo enrodilhado ou do substrato (folhas, troncos, etc.) e enrolar a cauda.

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Figura 3: Um indivíduo de coral-verdadeira Micrurus lemniscatus mostrando seu pequeno olho negro. Foto Paulo Bernarde.
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Figura 4: Coral-verdadeira exibindo sua cauda grossa, anéis completos e o comportamento de defesa de esconder a cabeça e enrolar a cauda.

Apenas 19% das serpentes brasileiras são consideradas peçonhentas e de importância médica (podem causar acidentes ofídicos), e dessas, a maioria está na Amazônia. Esses 19% (em torno de 76 espécies) incluem jararacas (gêneros Bothrocophias e Bothrops), cascaveis (Crotalus durissus), surucucu ou pico-de-jaca (Lachesis muta) e as corais-verdadeiras (Micrurus e Leptomicrurus, Além disso, corais-verdadeiras possuem hábitos fossoriais (hábito de se enterrar sob o solo) ou semi-fossoriais, tornando seu encontro ainda mais difícil. Portanto, se você encontrar uma cobra-coral na sua frente, as chances de ser “uma verdadeira” são menores que 10%, principalmente se você estiver fora da Região Amazônica. De qualquer forma, se encontrar qualquer espécie de coral, o mais correto é não manusear o animal (nenhuma espécie de serpente ataca se não for acuada). Se for possível, deixe-o voltar ao ambiente natural por sua conta própria ou tente removê-la com cuidado, com ajuda de algum objeto longo de modo a manter distância da serpente. Se necessário, chame um órgão responsável por manejo de animais silvestres como o Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) ou o Corpo de Bombeiros.

(…) Se você encontrar uma cobra-coral na sua frente, as chances de ser “uma verdadeira” são menores que 10%, principalmente se você estiver fora da Região Amazônica.

Em algumas cidades brasileiras, existem também locais especializados no estudo de serpentes que podem receber esses animais, como: o Instituto Butantan, em São Paulo, capital; a Fundação Ezequiel Dias (FUNED), em Belo Horizonte; o Núcleo de Ofidiologia de Goiânia (NUROG), em Goiânia, entre outros. O importante é lembrar que é nosso dever contribuir para a conservação das espécies e que não devemos nunca matar ou causar mal a nenhum outro animal.

Por Daniella P. França.

Referências

Bernarde, 2018. http://www.herpetofauna.com.br/. Acessado em 24/01/2018.

Costa & Bérnils, 2015. Lista Brasileira de Répteis. http://sbherpetologia.org.br/wp-content/uploads/2017/04/Reptilia-Brazil-Costa-B%C3%A9rnils-2015.pdf. Acessada em 24/01/2018.

Wikipédia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Mimetismo. Acessado em 18/11/2017.

Uetz, 2018. Site Reptile Database. http://reptile-database.reptarium.cz/. Acessado em 18/11/2017.

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Jornalista, formado pela Universidade Paulista. Trabalhou em agência atuando no segmento de mídias sociais e redação para o meio empresarial. Fazendo Jus ao nome, acabou unindo-se aos biólogos no Museu de Zoologia da USP onde desenvolve um trabalho de digitalização da coleção de Herpetologia. É Editor Adjunto e Editor de Cultura Pop do site Filos.