Apesar da baixa quantidade de crocodilomorfos conhecidos atualmente – cerca de 21 espécies entre jacarés, crocodilos, aligatores e gaviais – este grupo de répteis era amplamente diversificado e com formas muito especializadas na Era Mesozóica. Do pequeno e ágil Erpetosuchus aos gigantes Sarcosuchus e Purusaurus, esses primos dos dinossauros foram se adaptando aos diferentes tipos de ambientes e climas, gerando formas singulares e, algumas vezes, bizarras. O cenário pré-histórico brasileiro também possuiu personagens curiosos desse grupo de répteis. Um desses crocodilomorfos que viveram aqui é o Caipirasuchus.

Caipirasuchus é um gênero de crocodilomorfo que viveu há cerca de 90 milhões de anos. Seus restos fossilizados foram encontrados em rochas sedimentares da Formação Adamantina (Bacia Bauru) na região que hoje corresponde ao noroeste do Estado de São Paulo, mais especificamente nos arredores das cidades de Monte Alto, Catanduva e General Salgado.

O fóssil pertence a um grupo diversificado, com mais de 70 espécies formalmente descritas, chamado Notosuchia, cujos representantes são encontrados em bacias sedimentares do antigo supercontinente Gondwana. Os notossúquios tiveram seu auge de diversificação durante o período Cretáceo, especialmente na América do Sul, tendo sido extintos quase que totalmente no final do Cretáceo, exceto por alguns representantes de um subgrupo denominado Sebecosuchia, que sobreviveram até o Paleógeno.

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Figura 1. Filogenia calibrada mostrando a diversidade de táxons de Notosuchia, incluindo as três espécies de Caipirasuchus (em azul). A irradiação Aptiana (Aptian Radiation) corresponde ao primeiro pulso de diversificação do grupo, dando origem às primeiras linhagens na América do Sul, África e Ásia. A irradiação Turoniana-Santoniana (Turonian-Santonian Radiation) compreende a diversificação de três grupos principais – notossúquios avançados, Sebecosuchia+Comahuesuchus e peirossaurídeos da América do Sul (modificado de Pol et al., 2014).

Caipirasuchus significa “crocodilo caipira” e está relacionado à forma como os povos indígenas chamavam, desde a época do Brasil colonial, as pessoas que viviam na roça. O termo “caipira” é utilizado ainda hoje, especialmente para definir os nativos de algumas regiões interioranas rurais dos estados de São Paulo e Minas Gerais.

ka’apir ou kaa pira [tupi] = cortador de mato – suchus [grego] = crocodilo

Atualmente existem três espécies descritas para este gênero (em ordem de descrição):

1 – Caipirasuchus paulistanus Iori & Carvalho 2011

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Figura 2. Holótipo de Caipirasuchus paulistanus depositado no Museu de Paleontologia de Monte Alto (SP) sob o número MPMA 67-0001/00. Vistas lateral e dorsal. Escala: 5cm.

2 – Caipirasuchus montealtensis (Andrade & Bertini 2008)*revisão taxonômica por Iori et al. 2013 [ver referências]

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Figura 3. Holótipo de Caipirasuchus montealtensis depositado no Museu de Paleontologia de Monte Alto (SP) sob o número MPMA 15-0001/90. Vistas lateral e dorsal. Escala: 5cm.
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Figura 4. Material atribuído a Caipirasuchus montealtensis depositado no Museu de Paleontologia de Monte Alto (SP) sob o número MPMA 68-0003/12. Escala: 5cm.

3 – Caipirasuchus stenognathus Pol et al. 2014

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Figura 5. Holótipo de Caipirasuchus stenognathus depositado no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo sob o número MZSP-PV 139. Vistas lateral e dorsal. Escala: 2,5cm.

Através do conhecimento de sua anatomia esquelética, podemos dizer que o Caipirasuchus era um crocodilo de hábitos terrestres, assim como a grande maioria dos representantes de Notosuchia. Seus membros ficavam em uma posição mais vertical em relação ao tronco, fazendo com que seu ventre ficasse mais afastado do solo. Esta característica é bem diferente da encontrada nos crocodilos e jacarés atuais, que possuem seus membros dispostos lateralmente ao corpo, posicionando seu ventre bem próximo do solo, o que exige desses animais movimentos laterais para a locomoção. Apesar desses movimentos laterais serem pouco eficientes na terra, eles são extremamente úteis no ambiente aquático, o que faz com que esses animais sejam nadadores extremamente ágeis.

Embora a etimologia do nome faça referência a um “cortador de mato”, a alimentação de Caipirasuchus ainda é tema de grande discussão. Sua dentição é muito diferente na forma e tamanho daquela encontrada nos crocodilos e jacarés de hoje, e sendo assim, é logico imaginar que este tinha um hábito alimentar distinto.

ID_Paleo_004_Caipirasuchus Fig 6 A Tomistoma schlegelii 600px

ID_Paleo_004_Caipirasuchus Fig 6 B CAipirasuchus dentes 600px
Figura 6. Diferença no padrão de dentição encontrado nos jacarés e crocodilos atuais e o padrão visto em Caipirasuchus. A) Tomistoma schlegelii; B) Caipirasuchus.

Assim como em Caipirasuchus, os dentes dos demais notossúquios possuem uma grande variedade de formas e possíveis funcionalidades, incluindo uma característica marcante que é a heterodontia, ou seja, os dentes apresentam formas diferentes de acordo com sua posição na arcada dentária.

Diferentes hipóteses foram propostas para a forma de obtenção e processamento do alimento por esses animais. Hábitos não predatórios, herbivoria, onivoria, trituração do alimento, e até mesmo o processamento do alimento através da movimentação da mandíbula gerando um tipo de mastigação – ainda que restrita e sutil – são algumas das propostas de interpretação, baseadas nas diferentes morfologias dos dentes encontrados nos notossúquios.

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Figura 7. Imagem de tomografia computadorizada de alta resolução destacando a variação na morfologia dos dentes de Caipirasuchus stenognathus (MZSP-PV 139). (Fonte: Laboratório de Microtomografia Computadorizada de Alta Resolução do Museu de Zoologia da USP)
ID_Paleo_004_Caipirasuchus Fig 7 -Siluetas dentes notosuchia 600px
Figura 8. Exemplos de diferentes morfologias dentárias encontradas em alguns gêneros de notossúquios.

Embora ainda existam questões em aberto sobre alguns aspectos morfológicos e funcionais de Caipirasuchus, vale lembrar que os notossúquios são um dos grupos de crocodilomorfos fósseis mais bem representados e conhecidos, e que a descoberta de novos espécimes, associada ao refinamento das técnicas de análises, poderão ampliar nossa compreensão sobre esses répteis tão diversos e curiosos.

Autor Alberto Carvalho

Para saber mais:

Pol D, Nascimento PM, Carvalho AB, Riccomini C, Pires-Domingues RA, et al. (2014) A New Notosuchian from the Late Cretaceous of Brazil and the Phylogeny of Advanced Notosuchians. PLoS ONE 9(4): e93105. doi:10.1371/journal.pone.0093105

Iori FV, and Carvalho IS (2011). Caipirasuchus paulistanus, a new sphagesaurid (Crocodylomorpha, Mesoeucrocodylia) from the Adamantina Formation (Upper Cretaceous, Turonian–Santonian), Bauru Basin, Brazil, Journal of Vertebrate Paleontology, 31:6, 1255-1264.

http://dx.doi.org/10.1080/02724634.2011.602777

Pol D, and Leardi JM (2015). Diversity patterns of Notosuchia (Crocodyliformes, Mesoeucrocodylia) during the Cretaceous of Gondwana. En: M. Fernández y Y. Herrera (Eds.) Reptiles Extintos – Volumen en Homenaje a Zulma Gasparini. Publicación Electrónica de la Asociación Paleontológica Argentina 15(1): 172–186.

http://dx.doi.org/10.5710/PEAPA.10.06.2015.108

IORI FV, MARINHO TS, CARVALHO IS, and CAMPOS ACA (2013). Taxonomic reappraisal of the sphagesaurid crocodyliform Sphagesaurus montealtensis from the Late Cretaceous Adamantina Formation of São Paulo State, Brazil. Zootaxa 3686 (2): 183–200.

http://dx.doi.org/10.11646/zootaxa.3686.2.4

Andrade MB, and Bertini RJ. (2008a). A new Sphagesaurus (Mesoeucrocodylia: Notosuchia) from the Upper Cretaceous of Monte Alto City (Bauru Group, Brazil), and a revision of the Sphagesauridae. Historical Biology 20 (2): 101–136

DOI: 10.1080/08912960701642949

Andrade MB, Bertini RJ. (2008b). Morphology of the dental carinae in Mariliasuchus amarali (Crocodylomorpha, Notosuchia) and the pattern of tooth serration among basal Mesoeucrocodylia. Arquivos do Museu Nacional 66: 63–82.

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Jornalista, formado pela Universidade Paulista. Trabalhou em agência atuando no segmento de mídias sociais e redação para o meio empresarial. Fazendo Jus ao nome, acabou unindo-se aos biólogos no Museu de Zoologia da USP onde desenvolve um trabalho de digitalização da coleção de Herpetologia. É Editor Adjunto e Editor de Cultura Pop do site Filos.