Por Bruno Navarro

As aranhas, embora possam parecer assustadoras para muitas pessoas, representam um dos grupos de animais mais bem-sucedidos na natureza, com mais de 45 mil espécies conhecidas. Segundo o registro fóssil, a origem dos aracnídeos (grupo ao qual pertencem aranhas, escorpiões, ácaros, opiliões e outros animais pouco conhecidos) remonta há mais de 300 milhões de anos, desde a Era Paleozóica. Essa história evolutiva extensa nos mostra que esse grupo se diversificou em formas únicas ao decorrer de milhares de milhões de anos, até as espécies que você encontra hoje na parede da sua casa ou nas regiões densas de floresta tropical. Existem duas características principais para seu sucesso evolutivo, que estão relacionadas com a imobilização e captura de presas: as fiandeiras, que servem para a produção do fio de teias, e as estruturas inoculadoras de peçonha, que também estão presentes nos seus primos próximos, os escorpiões.

Mas, como já sabemos, na Biologia, para toda regra existe uma exceção, e a transformação e evolução destas características únicas das aranhas é obscurecida pelas lacunas no registro fóssil (assim como ocorre para diversos outros grupos), que nem sempre preserva as espécies-chave que auxiliam numa melhor compreensão dessa história evolutiva. Isto faz com que cada novo achado preencha uma lacuna importante no conhecimento das etapas de aquisição destas características. Este é o caso de um novo fóssil (figura 1) encontrado em Mianmar por Bo Wang e colaboradores, da Academia Chinesa de Ciências, e publicado no início desta semana na revista Nature Ecology & Evolution.

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Figura 1. O pequeno aracnídeo encontrado no âmbar se assemelha a uma aranha. Crédito: Wang et al. 2018.

O fóssil preservado em âmbar tem idade estimada em 100 milhões de anos, e foi encontrado em uma região muito rica para o registro paleontológico, de onde saíram diversos outros fósseis incríveis de artrópodes (invertebrados de corpo articulado), lagartos (com preservação completa) e até parte de uma cauda de um dinossauro aviano!

O animal, batizado de Chimerarachne yingi (ou a “aranha quimera de Ying”), apresentava uma estrutura diferente da maioria de seus parentes modernos: uma cauda! Seu nome é uma homenagem à Quimera, ser mitológico grego composto por partes de mais de um animal. Em Chimerarachne, a região anterior do corpo assemelha-se ao de uma espécie do gênero Mesotheles, que nas árvores evolutivas apresenta uma posição basal dentro do grupo das aranhas modernas, e que só habita as regiões da China, Japão e sudeste da Ásia. Já a região posterior do corpo é mais parecida com a dos escorpiões e parentes próximos, especialmente com os popularmente chamados “escorpiões-vinagre” (figura 2), que apresentam um abdômen alongado e uma cauda afilada. Vale ressaltar que nenhuma espécie de aranha moderna possui cauda.

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Figura 2. Escorpião-vinagre. Crédito: Daniel T./Território Selvagem.

As fiandeiras dos aracnídeos produzem fios de seda para “embrulhar” seus ovos, mantendo-os protegidos, fazer teias ou redes de repouso ou simplesmente deixar trilhas. As espécies que vivem em tocas deixam uma trilha pelo caminho ao saírem, para que possam encontrar o caminho de volta. Todos esses comportamentos evoluíram antes mesmo que as aranhas passassem a criar armadilhas para insetos. Provavelmente o Chimerarachne já era capaz de produzir fios de seda, mas é improvável que construíssem teias elaboradas como de algumas aranhas atuais. Mas os cientistas ainda não encontraram hipóteses para o grupo de Chimerarachne sobre qual seria a função de sua cauda ou o motivo de apresentarem peçonha (figura 3).

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Figura 3. Reconstrução de C. yingi. É possível que C. yingi usasse sua longa cauda como uma espécie de antena, como órgão sensitivo. Crédito: University of Kansas/KU News Service.

Assim como as questões fisiológicas da aranha quimera ainda são pouco conhecidas, suas relações filogenéticas (parentescos evolutivos) com os demais aracnídeos também não estão bem esclarecidas. O Chimerarachne compartilha um ancestral comum com as aranhas e o grupo conhecido como uraraneídeos, mas sua posição em relação a ambos ainda é incerta. A presença de características intermediárias que remetem aos dois grupos gera uma certa confusão e leva os pesquisadores a acreditarem que o animal pode ser uma forma intermediária entre os grupos. Tudo isso nos mostra que esta incrível descoberta é apenas uma pequena parte do universo de informações que podemos desvendar através do registro fóssil, imprescindível para que possamos compreender a evolução das espécies e suas características adaptativas.

Reconstrução em 3D do fóssil

Para saber mais sobre o estudo:

Bo Wang, Jason A. Dunlop, Paul A. Selden, Russell J. Garwood, William A. Shear, Patrick Müller and Xiaojie Lei. 2018. Cretaceous Arachnid Chimerarachne yingi gen. et sp. nov. illuminates Spider Origins..Nature Ecology & Evolution DOI: 10.1038/s41559-017-0449-3

http://www.bbc.com/news/science-environment-42945813 

Notícia sobre fósseis em âmbar

2 COMENTÁRIOS

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