Texto e fotos por Gisela Sobral

Hoje em dia, ouve-se muito falar da febre amarela, que teve nos últimos dois anos e meio um aumento na incidência de casos de maneira alarmante. Mais especificamente, a febre amarela ganhou a mídia recentemente por ter causado, em áreas de parques ou condomínios com mata preservada, a morte de dezenas de primatas não-humanos, animais pelos quais temos uma empatia natural.

Os primatas mais afetados pela doença são também os que mais interagem com humanos, como os saguis (gênero Callithrix), os macacos-prego (gênero Sapajus) e os bugios (gênero Alouatta). Erroneamente, as pessoas começaram a acreditar que esses animais transmitiam a doença, medo (e ignorância) que foi refletido na série lançada pela Netflix® em 2017, chamada “72 animais perigosos: América Latina”, onde diz que “os bugios são muito perigosos por transmitirem a febre amarela”. Infelizmente, poucas pessoas buscam a informação verdadeira. O transmissor da febre amarela é o mosquito, e o hospedeiro é o primata, sem distinção se o primata é humano ou não.

O gênero Callithrix

O gênero Callithrix[1] pertence à família dos callitriquídeos, que inclui saguis e micos, (gênero Leontopithecus – os mico-leões, e também, Cebuella e Saguinus) (figura 1). Essa família possui características únicas quando comparada a outros primatas: são de pequeno porte (menos de 1 kg) e a incidência de gêmeos é altíssima (apenas 15% dos nascimentos são de filhos únicos). Além disso, todos os membros do grupo ajudam na criação dos filhotes, carregando-os e dividindo alimento com eles. Os filhotes podem se tornar independentes a partir da décima semana de vida, fazendo com que reprodução desses animais seja extremamente rápida, o que faz com que sejam chamados pelos especialistas de “os roedores” entre os macacos (fazendo alusão à rápida procriação desses animais).

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Figura 1. Sagui (Callithrix sp.) no Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Foto: Gisela Sobral.

O gênero Callithrix está distribuído por todo o leste brasileiro, ocorrendo no Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. Esse gênero inclui seis espécies (Callithrix aurita, C. flaviceps, C. geoffroyi, C. kuhlii, C. penicillata e C. jacchus) que, de modo geral, têm coloração cinza no corpo (com a base do pelo alaranjada), o rabo anelado branco e cinza, além dos tufos nas orelhas (tufos auriculares) característicos do gênero (figura 2). A coloração dos tufos é uma característica importante e muito utilizada para a diferenciação das espécies.

O transmissor da febre amarela é o mosquito, e o hospedeiro é o primata, sem distinção se o primata é humano ou não.

As espécies C. jacchus e C. penicillata têm invadido o Sudeste possivelmente devido à destruição das suas florestas nativas e também por conta do contrabando ilegal como animais de estimação. Dessa forma, há registros dessas espécies formando grupos mistos e hibridando com as espécies locais. Os híbridos dessas duas espécies possuem tufos auriculares de coloração intermediária em relação às espécies-mães, gerando confusão na identificação.

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Figura 2. Distribuição das espécies de Callithrix, incluindo híbridos (Callithrix sp.). Adaptado de Rylands et al. (2009).

 

O gênero Sapajus

O gênero Sapajus[2] é o que popularmente chamados de macaco-prego ou macacos-capuchinhos (figura 3) e inclui oito espécies: Sapajus apella, S. cay, S. flavius, S. libidinosus, S. macrocephalus, S. nigritus. S. robustus e S. xanthosternos (figura 4). Recentemente, houve uma separação entre as espécies de Sapajus e as do gênero Cebus.

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Figura 3. Macaco-prego (Sapajus apella), Nobres, Mato Grosso. Foto: Gisela Sobral

Maiores e mais robustos que os Callithrix, os pregos podem chegar até 5 kg e medir 60 cm. Os macacos-prego são muito estudados dentro da área da Biologia que estuda a cognição, pois são um dos únicos capazes de utilizar ferramentas, dentre os primatas do Novo Mundo. Assim como os saguis, eles podem ser relativamente comuns nas metrópoles, revirando lixos e até roubando jornaleiros. Além de sua ousadia, os pregos podem ser relativamente agressivos, jogando objetos em outros animais e pessoas caso se sintam ameaçados.

Os machos geralmente são “topetudos” e o topete é dividido ao meio, mais semelhante ao personagem Wolverine do X-Men, sendo que, no caso de Sapajus robustus, o topete converge para o topo da cabeça. A coloração do corpo é variável. Algumas espécies, como Sapajus flavius, têm o corpo inteiro amarelado (chamado assim de “macaco-prego-dourado”). Já em S. cay e S. xanthosternos, a região do peito/torso é amarela, porém o topete e as patas são negros. Em S. nigritus, como o próprio nome diz, sua coloração é quase inteiramente negra.

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Figura 4. Distribuição aproximada de Sapajus segundo a lista vermelha da IUCN, incluindo todas as espécies recentes. Área hachurada indica simpatiaocorrência de simpatria. Adaptado de Lynch Alfaro et al. (2011) e Lynch Alfaro et al. (2012).

O gênero Alouatta

Dos três gêneros mais impactados pela febre amarela, o gênero Alouatta[3,4] (figura 5) é o mais suscetível, por razões ainda desconhecidas.

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Figura 5. Bugio ruivo (Alouatta clamitans sensu Gregorin, 2006), Parque Estadual Carlos Botelho, São Paulo. Foto: Gisela Sobral.

Os bugios são mais conhecidos pelo seu comportamento do que pelo animal em si. Por conta de uma especialização na região da laringe (hipertrofia do osso hioide), esses animais possuem uma câmara de ressonância que amplifica a sua vocalização, produzindo os famosos rugidos dos bugios. Os machos possuem as “barbas” maiores que as fêmeas, produzindo, então, sons mais graves e mais altos que elas. Os motivos para tanta cantoria são alvo de ampla especulação, porém parece haver uma relação direta entre o volume do uivo e o volume dos testículos. Outra característica particular desse gênero é o tricromatismo (são capazes de ver o vermelho), único entre os primatas Neotropicais.

Dos três gêneros mais impactados pela febre amarela, o gênero Alouatta é o mais suscetível

Atualmente são reconhecidas 12 espécies, podendo variar de acordo com o autor (figura 6), e a distribuição desse gênero é a mais ampla de todos os primatas Neotropicais.

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Assim como os Callithrix e Sapajus, os bugios podem ser encontrados nas metrópoles e bordas de mata, com contato frequente com os humanos. Entretanto, esse gênero é muito maior que os outros dois, chegando até 10 kg e considerado como o segundo maior macaco das Américas (perdendo apenas para o muriqui). A barba está presente em ambos os sexos e em todas as espécies, porém a coloração do corpo varia entre sexos, entre idades e também entre espécies. Há espécies totalmente negras (Alouatta pigra e A. nigerrima) e espécies onde o macho é negro e a fêmea amarelada (A. caraya). Outras apresentam a base do pelo negro, porém há partes avermelhadas no corpo (A. palliata com flancos vermelhos, A. macconnelli com torso vermelho, A. belzebul com mãos vermelhas). Por fim, outras são inteiramente avermelhadas (A. seniculus e A. guariba), sendo A. seniculus ainda mais vermelho e com um manto mais claro que A. guariba.

A partir de 2017, a febre amarela dizimou populações de bugios, com a pior taxa de mortalidade reportada em 80 anos. Na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala (antiga Estação Ecológica da Caratinga), em Minas Gerais, a população de bugios foi reduzida em 97%. No Espírito Santo, cerca de 1.000 animais morreram. No Rio de Janeiro e em São Paulo, as taxas de mortalidade pela doença não foram tão gritantes, porém a desinformação fez com que as populações locais matassem muitos macacos com medo de a doença se espalhar, aumentando o número de mortes. Estima-se que levará cerca de 30 anos para que todas essas populações se recomponham.

A Febre Amarela

Apesar de ser foco da mídia desde 2017, essa doença não é recente[5]. A febre amarela evoluiu cerca de 3000 anos atrás, na África e, com o tráfico de escravos nos séculos 16 e 17, hospedeiro, transmissor e vírus chegaram às Américas, onde encontraram diversos primatas humanos e não-humanos que nunca tiveram contato com a doença, o que fez com que ela se espalhasse rapidamente. Apesar das condições favoráveis na Ásia, a doença ainda não emergiu nessa região, por motivos desconhecidos.

Atualmente no Brasil, a febre amarela está restrita apenas ao ciclo silvestre (hospedeiros e vetores estão associados à mata), uma vez que o médico Oswaldo Cruz erradicou o ciclo das cidades na década de 1940. Para se manter na natureza, a febre amarela depende do mosquito Haemagogus sp. (principalmente), que é diurno e se reproduz no topo das árvores. Logo, pessoas que moram nas regiões de borda de mata e estão constantemente em contato com áreas florestadas estão mais expostas ao mosquito Haemagogus e, consequentemente, à febre amarela.

Atualmente no Brasil, a febre amarela está restrita apenas ao ciclo silvestre, uma vez que o médico Oswaldo Cruz erradicou o ciclo das cidades na década de 1940.

Nos continentes americano e africano, o controle da doença (e até erradicação em alguns lugares) se deu principalmente pela vacinação de pessoas. Como já amplamente divulgado pela mídia, a morte de macacos indica locais em que a vacinação é emergencial e eles, assim como nós, ou até mais que nós, são vítimas da doença e atuam como alerta sanitário. Não há, até o momento, nenhuma vacina para os primatas não-humanos.

Referências utilizadas

[1] Rylands AB, Coimbra-Filho AF & Mittermeier RA. 2009. The systematics and distributions of the marmosets (Callithrix, Callibella, Cebuella, and Mico) and callimico (Callimico)(Callitrichidae, Primates). In The smallest anthropoids (p25-61). Springer US.

[2] Lynch Alfaro JW, Boubli JP, Olson LE, Di Fiore A, Wilson B, Gutiérrez‐Espeleta GA et al. 2011. Explosive Pleistocene range expansion leads to widespread Amazonian sympatry between robust and gracile capuchin monkeys. Journal of Biogeography, v39(2), p272-288.

[3] Kowalewski MM, Garber PA, Cortés-Ortiz L, Urbani B & Youlatos, D. (eds). 2015. Howler Monkeys: Adaptive radiation, systematics, and morphology.

[4] http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/02/05/na-trilha-da-febre-amarela/

[5] World Health Organization (WHO). 1989. Geographical distribution of arthropod-borne diseases and their principal vectors. Unpublished document WHO/VBC/89.967. Geneva: World Health Organization.

Saiba mais sobre a febre amarela: