Por Daniella P. França

Já dizia meu orientador de mestrado, professor da Universidade Federal do Acre e herpetólogo (ramo da Ciência especializado no estudo de répteis e anfíbios), “nome popular não se discute, quem dá é a população!”. Ele sempre se irritava quando ouvia pessoas (geralmente biólogos) discutindo sobre os nomes comuns de espécies: “não, esse bicho não é uma cobra, é uma serpente, “o nome disso não é sapo, é perereca!”. Na verdade, os nomes comuns ou populares são criados pela população e não devemos discordar quando alguém de outra região ou estado dá um nome diferente do que conhecemos a alguma espécie, seja animal ou vegetal (grupos de seres vivos mais conhecidos popularmente).

No Brasil, uma mesma espécie com ampla distribuição pode ter dezenas de nomes populares. Isso ocorre porque nosso país apresenta um tamanho continental e diversas culturas, uma língua que é a mistura da língua portuguesa com línguas indígenas e demais línguas de diferentes origens no mundo, gerando quase um dialeto próprio em cada estado brasileiro. Os nomes populares devem ser tratados como um bem cultural de cada lugar e jamais com os mesmos rigores técnicos usados para a construção do nome científico de uma espécie nova. Sendo assim, se os rondonienses chamam a Bothrops atrox (espécie de serpente amazônica) de surucucu e os paraenses a chamam de jararaca, tudo bem!, mesmo que para a população do Sudeste a surucucu seja a Lachesis muta, chamada no Norte de pico-de-jaca. São nomes populares regionais que designam uma mesma espécie de serpente cujo nome científico é Bothrops atrox (figura 1).

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Figura 1: (a) Jararaca ou surucucu, Bothrops atrox e (b) surucucu ou pico-de-jaca Lachesis muta. Fotos: Paulo S. Bernarde.

Além da questão cultural regional, algumas espécies de animais podem apresentar uma grande variação em seu padrão de coloração, levando as pessoas a pensar que um indivíduo um pouco mais avermelhado e com mais manchas que outro da mesma espécie, deve ser outra espécie (variação intraespecífica). Esse fato causa confusão mesmo entre experientes naturalistas que acabam descrevendo indivíduos diferentes de uma mesma espécie como pertencentes a duas diferentes espécies. Citando novamente as serpentes peçonhentas do gênero Bothrops (gênero das serpentes brasileiras popularmente conhecidas como jararaca, jararacuçu, jaracuçu, urutu, cruzeira, surucucu, pingo-de-ouro, jararaquinha-do-rabo-branco), é muito comum que os indivíduos juvenis de algumas espécies apresentem a parte final da cauda de coloração esbranquiçada ou creme, o que não ocorre nos adultos (salvo exceções). Tendo essa característica como diferencial, a população entende que os indivíduos jovens são de uma espécie diferente, dando-lhes um nome diferente do nome do adulto (jararaquinha-do-rabo-branco). Para aumentar ainda mais a confusão, as serpentes não-peçonhentas do gênero Xenodon são confundidas com as do gênero Bothrops, sendo frequentemente mortas pela semelhança de coloração com as primas peçonhentas.

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Figura 2: Diferentes padrões de coloração em Bothrops moojeni: (a) adulta de coloração rosada, chamada jararaca; (b) adulta de coloração acinzentada com parte gular (a baixo da cabeça) amarelada, chamada jaracuçu-de-papo-amarelo e (c) juvenil com a parte final da cauda esbranquiçada, chamada jararaquinha-do-rabo-branco; (d) serpente do gênero Xenodon (serpentes frequentemente confundidas com as espécies do gênero Bothrops). Fotos: Daniella P. F. França.

E o nome científico? Esse é único! O nome científico de uma determinada espécie será sempre o mesmo em qualquer lugar do mundo! Os zoólogos taxonomistas (cientistas especialistas em descobrir e nomear novas espécies além de organizar a classificação das já existentes) criaram um conjunto de regras, chamado Código Internacional de Nomenclatura Zoológica (ICZN – http://iczn.org/code), o qual todos que decidem classificar grupos de espécies, reorganizar classificações já realizadas e descrever novas espécies devem seguir. Através do Código, estabeleceu-se que uma espécie animal pode ter apenas um único nome científico, usado para nomear uma espécie descrita sob as regras do mesmo documento, de forma a não gerar nenhuma ambiguidade em sua identificação. Mas existem casos em que a nomenclatura científica se mistura à popular, como acontece com a denominação dos anfíbios brasileiros.

Em inglês, quando falamos em nomes de grupos de anfíbios, tudo é muito simples, de modo geral: vulgarmente falando, tudo que pula ou salta, tem quatro patas e não tem cauda (pelo menos na fase adulta) é “frog” que, em português, pode significar perereca, sapo ou rã ou uma pequena variação para designar as pererecas, chamadas “tree frog”. Existe também a palavra “toad” (figura 3), que seria um nome mais específico para aqueles anfíbios de pele bastante rugosa conhecidos no Brasil como “sapos-cururu”, pertencentes a família Bufonidae. No nosso país, além de sapo, ainda temos as rãs, as pererecas, as gias e os caçotes, e provavelmente mais denominações regionais que fogem ao meu conhecimento; todos esses nomes se referem aos anfíbios anuros, ou seja, que não apresentam cauda na idade adulta e possuem quatro patas.

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Figura 3: Anfíbio da família Bufonidae (Rhinella marina) chamado, em inglês, de “toad”. No Brasil o nome comum seria “sapo-cururu”. Foto: Daniella P. F. França.

Até o início dos anos 2000, a maior parte dos anuros brasileiros (pelo menos a maior parte dos conhecidos pela Ciência e pela população) estavam classificados dentro de sete famílias: Bufonidae (como as espécies brasileiras do gênero Bufo, hoje alocadas no gênero Rhinella), os chamados sapos-cururu; Leptodactylidae (gênero Leptodactylus), as rã, gias ou caçotes; Hylidae (espécies brasileiras do gênero Hyla, hoje alocadas dentro de dezenas de gêneros), as pererecas; Dendrobatidae (gêneros Dendrobates, Epipedobates, etc), os sapinhos-venenosos ou sapos-flexa; Microhylidae (gêneros Chiasmocleis, Dermatonotus, Elachistocleis), os sapinhos-apito-de-juiz; Pipidae (gênero Pipa), os sapos-pipa; e, por fim, Ranidae (gênero Lithobates), as rãs, entre elas a espécie introduzida (não natural do Brasil) Lothrobates catesbeianus (conhecida como rã-touro), antigamente pertencente ao gênero Rana. Com o advento da biologia molecular, que possibilitou não apenas o estudo do DNA desses organismos mas também ocasionou um aumento no número de profissionais herpetólogos interessados em pesquisar esse grupo, várias novas espécies de anuros foram descobertas e as sete antigas famílias brasileiras multiplicaram-se em 29! Então, o que me foi ensinado já em 2006 na faculdade de Biologia, antes das grandes revisões taxonômicas foi que:

  1. Sapos são os representantes da antiga família Bufonidae, caracterizados por sua pele granulosa, membros e dedos curtos, tronco robusto e saltam pequenas distâncias no chão (hábito terrícola) (Figura 4);
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Figura 4: Sapo da espécie Rhinella margaritifera. Foto: Daniella P. F. França.
  1. Pererecas seriam todos os representantes da antiga família Hylidae, com seus discos adesivos nas pontas dos dedos, corpo esguio, pele lisa e membros posteriores longos, possibilitando saltos de grandes distâncias e hábito arborícola (vivem sobre vegetação) (Figura 5);
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Figura 5: Perereca da espécie Boana albopunctata. Foto: Daniella P. F. França.
  1. Rãs são as representantes das antigas famílias Leptodactylidae, Pipidae e Ranidae, caracterizadas por estarem sempre associadas ao ambiente aquático, e por apresentarem pele lisa, corpo robusto, além de membros posteriores e os dedos alongados, facilitando assim seus grandes saltos; em algumas espécies, as membranas interdigitais são bem desenvolvidas, facilitando a natação (Figura 6). Gia e caçote são outros nomes dados aos representantes da família Leptodactylidae no interior do país.
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Figura 6: Da esquerda para a direita, rãs dos gêneros Leptodactylus, Lithobates e Pipa.
  1. Sapos-flecha (em sua maioria amazônicos) são pertencentes à antiga família Dendrobatidae. Esses animais raramente passam de três centímetros de comprimento total, saltam rapidamente longas distâncias, possuem cores vibrantes e potentes toxinas na pele, compostas principalmente por compostos alcalóides (proteínas com alto teor tóxico que podem ser produzidas pelo organismo a partir de moléculas internas ou do sequestro na ingestão de insetos, como besouros e formigas) (figura 7);
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Figura 7: Sapinho-venenoso, também chamado sapo-flecha, da espécie Ameerega trivittata. Foto: Daniella P. F. França.
  1. Sapinhos-apito-de-juiz ou sapinhos-lisos são os representantes da família Microhylidae, com suas cabeças muito pequenas em relação ao corpo largo e achatado, pele lisa, membros curtos e a maioria das espécies de hábitos fossoriais (a maioria das espécies vive no interior do solo, de onde emitem um som agudo parecido com um apito de juiz de futebol). Por viverem quase sempre escondidos sob o folhiço, é a família menos conhecida pela população em geral e, por isso, nem todas as espécies possuem nomes populares (figura 8).
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Figura 8: Sapinho-liso da espécie Hamptophryne boliviana. Foto: Daniella P. F. França.

Em resumo, para não gerar confusão, já que as sete famílias aqui citadas agora são representadas em 29 (http://sbherpetologia.org.br/wp-content/uploads/2016/10/Segalla_et_al_2016.pdf), os sapos são os anuros com pele granulosa que saltam pequenas distâncias no chão; as rãs possuem pele lisa e membros posteriores alongados, os quais usam para saltar longas distâncias ou nadar, estando associadas com frequência ao ambiente aquático e as pererecas apresentam discos adesivos nas pontas dos dedos, pele lisa e membros posteriores longos, o que possibilita saltos de grandes distâncias em meio às árvores e até mesmo no banheiro da sua casa! Mesmo assim, algumas denominações populares para anfíbios anuros fogem da classificação “usual” do que é um sapo, uma perereca ou uma rã, como por exemplo os sapos-pipa (Pipa sp.), que apresentam todas as características que seriam facilmente inidentificáveis de uma rã e são chamados de sapo. Assim, mesmo que a Biologia tenha criado mecanismos para sistematizar essas denominações, devemos considerar que o mais fácil é entender as características de cada família, caso você tenha interesse no lado mais científico do assunto, ou então respeitar os nomes regionais dados a cada grupo de espécies. Licença poética à nomenclatura popular!

Referência imagens:

Figura 6 – Leptodactylus – foto: Daniela P. F. França, Lithobates catesbeianus : httpswww.savethefrogs.comcountriesusaamphibiansbullfrogs e Pipa sp.: http://mundoanimal66.blogspot.com.br/2013/01/pipa-o-sapo-com-habitos-reprodutores.html