Por Daniella França e Leo R. Malagoli.

Poucos animais têm tantos nomes populares quanto a serpente Corallus hortulanus: “cobra-veadeira”, “cobra-de-veado”, “jiboinha”, “cobra-cachorro” e “suaçubóia”. Enquanto várias espécies são conhecidas apenas pelo nome científico, não tendo nem mesmo um nome popular, o fato de a C. hortulanus ter tantos nomes populares é muito interessante. Talvez essa variedade de nomes seja devido à quantidade de padrões de coloração (policromatismo) diferentes que a espécie possui, variando do bege-claro ao alaranjado, e pelo fato de ser uma espécie bastante avistada nas regiões sertanejas do Brasil. Os filhotes e jovens são geralmente mais coloridos, mas os adultos também variam bastante.

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Figura 1: Diferentes padrões de coloração da “cobra-veadeira”. Fotos: a de Daniella França; b, c, d de Paulo S. Bernarde; e de Paulo R. Machado-Filho; f de M. Teixeira Júnior.

As cobras-veadeiras são representantes da família Boidae, da qual também fazem parte as sul-americanas sucuris ou anacondas (gênero Eunectes), jibóias (gênero Boa), jibóias-arco-íris (gênero Epicrates), a jibóia-do-Ribeira (C. cropanii – ver texto sobre essa espécie aqui no Filos) e cobra-papagaio (Corallus caninus, e C. batesii). De hábitos estritamente arborícolas, a C. hortulanus vive principalmente em florestas e se distribui amplamente pela América do Sul, sendo frequentemente encontrada em árvores às margens dos rios e em cavernas, onde alimenta-se dos morcegos que as habitam. Aves, pequenos mamíferos, lagartos e anuros (sapo, perereca, rã/ver o texto “Nomes comuns e o caso do sapo, perereca e rã”) também fazem parte de sua alimentação. Assim como seus outros primos boídeos, não são serpentes peçonhentas. Tem dezenas de dentes usados para segurar e deglutir, mas nenhuma presa de veneno. Para capturar suas presas, as cobras-veadeiras apoiam a parte final do corpo em galhos de árvore e flexionam-se para frente, subjugando-as e matando-as por asfixia através de constrição (envolvem-nas com seu próprio corpo e as impedem de respirar).

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Figura 2: Outras serpentes da família Boidae: (a) Boa constrictor; (b) Corallus batesii; (c) Corallus cropanii; (d) Epicrates cenchria; (e) Epicrates crassus; (f) Eunectes murinus. Fotos: a, f de Daniella França; b, d, e de Paulo S. Bernarde; c de Lívia Correa.

A cobra-veadeira é vivípara, ou seja, não bota ovos! Ela mantém os filhotes no interior do corpo até estarem prontos para nascer e se alimentar sozinhos. O número de filhotes por ninhada varia de 03 a mais de vinte. As pequenas serpentes nascem em geral no meio ou final da estação chuvosa (a época reprodutiva pode ter pequenas variações de acordo com a distribuição geográfica).

Como essa espécie apresenta uma ampla distribuição e parece se adaptar bem a ambientes com presença humana moderada, ainda não está sob risco de extinção. Mesmo assim, devemos nos atentar para esta e outras espécies que parecem ser abundantes na natureza, pois a destruição dos seus habitats naturais pode levá-las a uma diminuição na densidade populacional. Este fato pode resultar em extinções locais, causando desequilíbrios na cadeia alimentar e empobrecimento da biodiversidade.

Foto de capaLeo R. Malagoli.