Por André Cattaruzzi

Preguiças-gigantes estão entre os mais icônicos animais da chamada megafauna sul-americana, o conjunto de espécies de grande porte, especialmente mamíferos, extintos no nosso continente até aproximadamente 10 mil anos atrás. Imagina como seria andar por uma floresta tropical e se deparar com uma preguiça-gigante de mais de 4m de altura! As preguiças no passado eram muito diversas e um grupo em particular, o do gênero Thalassocnus, ousou ainda mais ao se adaptar ao ambiente marinho costeiro da costa oeste da América do Sul. Mas esse grupo merece outro destaque: é possível traçar, através de fósseis de diferentes idades, a evolução das adaptações que lhes permitiram ocupar o ambiente aquático, com destaque para mudanças nas estrutura óssea (controle de flutuabilidade) e dentição.

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Fig.1. Esqueleto de Thalassocnus natans. Retirado de Amson et al. 2015.

Atualmente, são reconhecidas cinco espécies de Thalassocnus: T. antiquus, T. natans, T. littoralis, T. carolomartini e T. yaucensis, em ordem da mais antiga para mais nova, sendo que as diferenças morfológicas entre elas indicam uma gradual adaptação ao ambiente aquático1,2. Eram preguiças relativamente pequenas, alcançando dois metros de comprimento e em torno de 50 quilos, distantes dos seus parentes mais famosos, como o Megatherium, que chegava ao tamanho de um elefante asiático atual.

Os Thalassocnus viveram entre 7,25 e 2,59 milhões de anos atrás, portanto entre o final do Mioceno e início do Plioceno3, nas áreas costeiras dos atuais Peru e Chile2. Na época, o litoral era marcado por um deserto, sendo que a falta de alimentos (vegetação escassa) teria impelido as preguiças a buscar sua sobrevivência no mar, devido à abundância de algas e plantas aquáticas.

Uma das características mais marcantes das espécies de Thalassocnus que as distinguem de outras preguiças relacionadas é possuir a porção anterior do crânio mais alongada, além de os ossos do focinho terem uma estrutura mais porosa, indicando alta circulação de sangue4,5. Essas feições indicariam que estes animais teriam lábios bem desenvolvidos, assim como nos peixes-boi e dugongos, que os utilizam para manipular o alimento no fundo do mar. Ao longo da evolução dessas preguiças, o focinho se tornou mais longo e espatulado, indicando que os lábios se tornaram mais poderosos ao longo de sua evolução (figura 2). Adicionalmente, ocorreram mudanças na dentição, sendo que as espécies mais recentes apresentavam menor desgaste, um indicativo de menor quantidade de areia em meio a seu alimento, um indicativo de que estavam se alimentando em áreas mais fundas e afastadas da costa.

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Fig.2. Comparativo do crânio das espécies de Thalassocnus. Modificado de de Muizon et al., 2004.

Alterações no esqueleto desses animais também indicam hábitos aquáticos3. Os poderosos membros dianteiros ajudariam a escavar raízes no fundo do mar e auxiliar na propulsão, atuando como remos. Mudanças na estrutura da bacia pélvica e do fêmur indicam menor função dos membros traseiros na tarefa de suporte. As vértebras da cauda apresentam um padrão observado em lontras e castores, indicando que essa estrutura ajudaria no mergulho, assim como manter a posição do animal na água.

Ao longo da evolução dessas preguiças, o focinho se tornou mais longo e espatulado, indicando que os lábios se tornaram mais poderosos ao longo de sua evolução

A estrutura dos ossos das preguiças aquáticas era bastante densa e compacta, com redução da medula, um fenômeno conhecido como osteoesclerose. Outra característica observada é nesses fósseis é a paquiostose, que consiste em uma expansão do córtex do osso, gerando um aspecto “inchado”, e aumentado se comparado com espécies sem essa feição (a origem da palavra está relacionada ao termo “paquiderme”, que é como são chamados os elefantes). Essas modificações evolutivas tornaram o animal mais denso, atuando como um lastro e permitindo contrabalançar a flutuabilidade gerada pelo ar nos pulmões e manter a posição do corpo na água. Essas adaptações são típicas em animais que se alimentam no fundo de mares rasos e que possuem locomoção lenta, como os peixes-boi e dugongos atuais. Adicionalmente, um recente estudo comparou os ossos (costela, fêmur e tíbia) das espécies de Thalassocnus e observou que houve um aumento do grau de compactação ao longo de 4 milhões de anos de evolução do grupo, indicando que essas preguiças passaram a se tornar cada vez mais especializadas a viver em ambiente aquático (figura 3). Curiosamente, as preguiças gigantes mais próximas já possuíam ossos mais compactos que o observado na maioria dos fatores, o que teria facilitado a um grupo próximo se aventurar no mar e depois desenvolver tal característica ainda mais.

Um recente estudo comparou os ossos (costela, fêmur e tíbia) das espécies de Thalassocnus e observou que houve um aumento do grau de compactação ao longo de 4 milhões de anos de evolução do grupo

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Fig.3. Evolução da compactação das costelas nas espécies de Thalassocnus. As ilustrações mostram o corte transversal da costela, com a medula em branco e córtex em preto. Notar que a medula praticamente desaparece na espécie mais recente. Modificado de Amson et al. 2014 .

Não há uma causa confirmada para a extinção desses animais. Entretanto, algumas hipóteses foram formuladas2. O pesquisador Eli Amson e seus coautores destacam que o resfriamento das águas no Pacífico durante o início do Plioceno teria reduzido a disponibilidade de vegetação marinha. Além disso, para enfrentar as temperaturas mais baixas, o Thalassocnus teria que desenvolver uma camada de gordura para manter sua temperatura interna. No entanto, como a gordura é menos densa que a água, isso afetaria a capacidade das preguiças de se manterem no fundo, área onde haviam se especializado em buscar alimento. Isso poderia ter sido o fator decisivo na extinção desse grupo. Uma coisa, porém, é certa: as preguiças-gigantes e preguiças-marinhas continuam nos fascinando até hoje.

Referências

1Amson, E., de Muizon, C., Laurin, M., Argot, C., & de Buffrénil, V. (2014). Gradual adaptation of bone structure to aquatic lifestyle in extinct sloths from Peru. Proceedings of the Royal Society of London B: Biological Sciences, 281(1782), 20140192.

2Amson, E., Argot, C., McDonald, H. G., & de Muizon, C. (2015). Osteology and functional morphology of the axial postcranium of the marine sloth Thalassocnus (Mammalia, Tardigrada) with paleobiological implications. Journal of Mammalian Evolution, 22(4), 473-518.

3http://fossilworks.org/bridge.pl?a=taxonInfo&taxon_no=72041

4De Muizon, C., & McDonald, H. G. (1995). An aquatic sloth from the Pliocene of Peru. Nature, 375(6528), 224.

5De Muizon, C., Mcdonald, H. G., Salas, R., & Urbina, M. (2004). The evolution of feeding adaptations of the aquatic sloth Thalassocnus. Journal of Vertebrate Paleontology, 24(2), 398-410.

Capa Carl Buell