Por Ana Bottallo e Hussam Zaher

Que o humano moderno – Homo sapiens – se originou na África é um fato, até o momento, unânime. Mas embora a origem da linhagem dos hominídeos – como são chamadas todas as espécies de humanos e seus parentes mais relacionados, como os grandes primatas africanos – seja datada em aproximadamente 6 milhões de anos atrás, a espécie Homo sapiens teria evoluído há apenas 200.000 anos atrás[1]. A partir do seu centro de origem no continente africano, o Homo sapiens migrou e ocupou toda a Ásia e posteriormente a Europa, onde conviveu com o Homo neanderthalensis até que esse último se tornasse extinto (mas, como mostram estudos genômicos humanos recentes, não totalmente extinto: aproximadamente 2% do DNA de populações europeias atuais são de neandertal [2]). Essa primeira dispersão do H. sapiens era datada previamente entre 90 a 120 mil anos atrás. Porém, achados fósseis de Homo sapiens em Israel (figura 1) e datados em aproximadamente 185.000 anos colocam em questão essa história evolutiva e indicam que a saída do homem do continente africano foi muito anterior ao que se pensava. O estudo foi publicado em janeiro na revista Science.

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Figura 1. Fragmento de maxilar atribuído à espécie H. sapiens encontrado na caverna Misliya. Foto: Israel Hershkovitz/Universidade de Tel Aviv (Divulgação).

A caverna de Misliya

O achado fóssil foi encontrado na caverna de Misliya (figura 2), parte de um complexo de cavernas pré-históricas ao longo da costa ocidental do Monte Carmelo, em Israel, e que vinha sendo explorado desde o início do século passado. Mas, foi apenas a partir dos anos 2000 que a equipe liderada pela arqueóloga Mina Weinstein-Evron, da Universidade de Haifa (Israel) e o paleoantropólogo Israel Hershkowitz, da Universidade de Tel Aviv, iniciaram um projeto intitulado “Buscando pela Origem dos Humanos Modernos mais Antigos” em busca de novos achados de hominídeos, e começaram a escavar as cavernas do Monte Carmelo.

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Figura 2. A caverna Misliya, em Israel, que fica a 90 metros acima do nível do mar. Foto: Mina Weinstein-Evron, Universidade de Haifa (Divulgação).

O maxilar da caverna de Misliya – chamado, pelos autores no artigo, de Misliya-1 – foi encontrado em 2002, mas só agora foi publicado. Os autores reconstruíram um modelo 3D do fóssil a partir do uso de tomografia computadorizada e compararam o achado com outros fósseis de humanos primitivos, como os encontrados em outros sítios no Oriente Médio, na Ásia e na Europa, e também com restos mortais de humanos modernos.

Para inferir a idade do fóssil, os pesquisadores utilizaram três métodos distintos de datação, que foram realizados em três laboratórios, evitando assim a possibilidade de replicação dos resultados. Os resultados dos três testes foram consistentes e a idade estimada do fóssil é entre 177 a 194 mil anos.

A primeira dispersão do H. sapiens era datada previamente entre 90 a 120 mil anos atrás. Porém, achados fósseis de Homo sapiens em Israel e datados em aproximadamente 185.000 anos colocam em questão essa história evolutiva e indicam que a saída do homem do continente africano foi muito anterior ao que se pensava.

Além do maxilar com dentes encontrado em Misliya, evidências de uso de ferramentas de pedra e de fogueiras também foram encontradas e associadas à população de sapiens antiga (figura 3). Essas ferramentas, chamadas de Levallois também foram documentadas em outros sítios de mesma idade ou mais antigos na região do norte, oriente e sudeste da África. Por isso, a presença dessas ferramentas serve como evidência adicional de que a população de sapiens ali encontrada migrou da África muito antes do que se imaginava.

Sapiens Vs. Neandertal

Embora o fóssil em questão seja composto apenas de um fragmento de maxilar de um indivíduo adulto, a sua distinção com outras espécies de Homo que já viviam fora do continente africano, como H. erectus e H. neanderthalensis é dada principalmente devido à forma dos dentes e à ausência de um canino altamente alargado, característico de H. erectus e H. neanderthalensis. Além disso, comparando o tamanho do maxilar do fóssil aos demais encontrados de idade aproximada, este se aproxima à variação encontrada nos humanos modernos, diferentemente das demais espécies de Homo, cujo tamanho da arcada é bem maior.

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Figura 3. Sedimentos de cinzas de fogueiras encontradas pelos pesquisadores em Misliya. As fogueiras foram montadas repetidamente ao longo da duradoura ocupação da caverna. Foto: Mina Weinstein-Evron, Universidade de Haifa (Divulgação).

Enquanto H. erectus é conhecido principalmente da Ásia, H. neanderthalensis apresentava uma distribuição geográfica em toda a Eurásia e, possivelmente, era encontrado também na região do Monte Carmelo. Nada impede, portanto, que a população de sapiens ali descoberta tenha interagido com as outras espécies de Homo ali presentes por, pelo menos, algumas dezenas de milhares de anos. Essa nova hipótese sugere que toda a história evolutiva dos humanos seja reescrita.

Primeiras migrações e o humano moderno

Tradicionalmente, a história evolutiva indicava que a primeira migração de sapiens para fora do continente africano tinha ocorrido há 60.000 anos. Análises de DNA de populações da Ásia, Austrália, Europa e Américas indicavam uma descendência comum há pelo menos 60 mil anos[3]. Mas nos últimos anos, diversos fósseis de hominíneos encontrados fora da África questionaram essa hipótese.

Além do maxilar com dentes encontrado em Misliya, evidências de uso de ferramentas de pedra e de fogueiras também foram encontradas e associadas à população de sapiens antiga.

Segundo Hershkovitz, existiam evidências para uma saída anterior, mas não tinham respostas. A nova descoberta funciona como uma “peça de quebra-cabeças”, e indica que um possível êxodo aconteceu cerca de 250 mil anos atrás[4,5]. Ainda assim, isso não significa que as linhagens atuais descendam desse grupo migratório – é possível que as primeiras tentativas de migração de sapiens para a Eurásia tenham resultado em extinções. Daí a informação genética de uma descendência comum entre todas as populações há 60 mil anos faria sentido.

“A descoberta modifica o patamar há muito tempo estabelecido de 130 mil anos para a presença de humanos modernos fora da África”, afirma Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres, que participou do estudo. “As novas datações apontam que podem ser descobertos Homo sapiens ainda mais antigos no oeste asiático”.

Para complicar ainda mais essa história, a revelação no ano passado de um achado fóssil datado em 300.00 anos de um possível sapiens no Marrocos trouxe ainda mais discussão sobre quando e onde surgiu nossa espécie[6]. Por outro lado, fósseis encontrados em outras regiões da África e de idades mais recentes (de 195 a 160 mil anos) seriam formas mais modernas, quando comparadas à forma relativamente arcaica do achado de Marrocos. Essa lacuna entre formas “modernas” e formas “primitivas” no registro fóssil de sapiens na África é contraposta pelos achados de humanos modernos na Ásia e do estudo em questão.

A descoberta modifica o patamar há muito tempo estabelecido de 130 mil anos para a presença de humanos modernos fora da África (…) As novas datações apontam que podem ser descobertos Homo sapiens ainda mais antigos no oeste asiático

As evidências indicam que o sudoeste asiático serviu como um corredor biogeográfico para a migração de humanos primitivos ao longo da nossa história evolutiva. Segundo os autores do estudo, é possível que os achados dos sítios arqueológicos do Monte Carmelo, devido à sua proximidade com o continente africano, indiquem uma série de expansões geográficas de H. sapiens que ocorreram há pelo menos 250.000 anos, possivelmente devido a flutuações demográficas ou ambientais.

Misliya-1 pode indicar que Israel e toda a Península Arábica eram parte de uma região muito mais ampla onde o sapiens teria evoluído, e não apenas passado, segundo o arqueólogo John Shea, da Universidade de Stony Brook, em Nova Iorque[3]. “Nós pensamos em Israel como parte da Ásia por motivos geopolíticos, mas na verdade é uma zona de transição entre o norte da África e a Ásia ocidental. Muitas espécies de animais ‘afro-arábicos’ vivem ali, ou viveram até recentemente”, como leopardos, leões e zebras. “O Homo sapiens poderia ser apenas mais uma dessas espécies”, diz Shea.

Saiba mais sobre este estudo:

Hershkovitz, I., Weber, G. W., Quam, R., Duval, M., Grün, R., Kinsley, L., … & Weinstein-Evron, M. 2018. The earliest modern humans outside Africa. Science, 359(6374), 456-459.

Demais referências utilizadas:

[1] https://www.newscientist.com/article/dn9989-timeline-human-evolution/

[2] https://www.nature.com/articles/nature18964

[3] https://www.nature.com/articles/d41586-018-01261-5

[4] http://www.bbc.com/portuguese/geral-42813116

[5] https://www.washingtonpost.com/news/speaking-of-science/wp/2018/01/25/scientists-discover-the-oldest-human-fossils-outside-africa/?utm_term=.ccd0bc0ef9f1

[6] https://www.nature.com/articles/nature22336