Por Amanda Gomes

Abaixo da superfície do oceano, a partir dos 200 metros de profundidade, existe uma zona de transição conhecida como zona mesopelágica. Esta região, que pode se estender até os 1000 metros de profundidade, é caracterizada por receber pouquíssima luz solar e está situada entre as zonas epipelágica e batipelágica. A temperatura na zona mesopelágica pode chegar até 4°C e as massas de água se movem em ritmo lento.

Nessas regiões profundas do oceano, existem diversas formas de vida com características adaptadas para viver em um ambiente com pouquíssima ou nenhuma luminosidade e com a escassez de alimentos, como: lulas, sépias, diversos outros invertebrados e peixes, como o peixe-pescador, o peixe-dragão, o peixe-víbora e o peixe- machadinha. Os três últimos fazem parte de uma ordem chamada Stomiiformes, que é formada por espécies que ocorrem nas regiões meso e batipelágicas e que estão presentes em todos os oceanos da Terra.

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Fig. 1. Duas espécies de loosejaws: A. Malacosteus niger; B. Aristostomias scintillans; C. Vista ventral da mandíbula de M. niger (sm = membrana sinfiseal; ph = protrator do hióide; ih = inter-hial; ch = cerato-hial; md = mandíbula). Fonte: Kenaley, 2012.

Apesar de possuírem uma aparência assustadora, os stomiiformes, conhecidos em inglês como dragonfishes (“peixes-dragões”) não apresentam grande porte, podendo variar entre 1,5 cm e 50 cm (porém, a maioria é de pequeno porte). Sua coloração é predominantemente escura, variando de marrom-escuro a preto, embora algumas espécies sejam prateadas.

Algumas espécies, como as do gênero Malacosteus, possuem a boca tão grande que suas mandíbulas são mais longas que seu próprio crânio e lhe conferem a capacidade de abrir a boca em ângulos de abertura maiores que 100º

Stomiiformes é um grupo diverso com aproximadamente 417 espécies, que diferem muito umas das outras. A variação morfológica dessas espécies está no formato do corpo, cabeça, boca, olhos e nadadeiras, além da presença e ausência de outros elementos, como barbilhões e escamas1-3. Algumas das diferenças morfológicas mais evidentes, encontradas entre as famílias da ordem, são essas:

Boca: a boca varia muito entre as famílias desse grupo de peixes, podendo ser grande e ampla ou pequena e quase vertical, como em alguns representantes da família Sternoptychidae, que inclui os peixes-machadinha. Algumas espécies, como as do gênero Malacosteus, possuem a boca tão grande que suas mandíbulas são mais longas que seu próprio crânio e lhe conferem a capacidade de abrir a boca em ângulos de abertura maiores que 100º! Além disso, esses peixes peculiares não possuem as membranas típicas que formam o assoalho da boca dos vertebrados, o que os deu o nome em inglês de loosejaws (ou “mandíbula frouxa”, em tradução livre) (figura 1).

Seus dentes são tão grandes que se sobrepõem às mandíbulas quando a boca está fechada, e são muito afiados, permitindo com que perfurem facilmente suas presas.

Dentes: com relação aos dentes, estes variam desde dentes de igual tamanho e em forma de cerdas até dentes do tipo “presa” nos peixes-dragões (figura. 2). Em algumas espécies de peixe-víbora (gênero Chauliodus), os dentes são extremamente longos e em formato de agulha, daí o seu nome (fazem lembrar as presas de uma serpente víbora) (figura 2). Além disso, eles também possuem o recorde de maior dente relativo ao tamanho da cabeça: a altura do dente chega a medir mais que a metade do tamanho da cabeça! Seus dentes são tão grandes que se sobrepõem às mandíbulas quando a boca está fechada, e são muito afiados, permitindo com que perfurem facilmente suas presas.

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Figura 2. À esquerda: peixe-víbora Chauliodus macouni; à direita: Pachystomias
Microdon. Fonte: adaptado de Kenaley, 2012 e Kenaley, 2010.

Corpo: varia de alongado (figura 3) ou fusiforme e comprimido dorso-ventralmente na maioria das espécies do grupo, sendo muito alongado em algumas espécies, porém, nos peixe-machadinha o corpo é comprimido lateralmente (figura 4). 

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Figura 3. Idiacantus antrostomus. Fonte: Van Noord, J.E. Disponível em http://www.fishbase.org.
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Figura 4. Peixe-machadinha Argyropelecus aculeatus. Fonte: SEFSC Pascagoula Laboratory.

Olhos: variam de muito pequenos a relativamente grandes na maioria das espécies; já nos peixes-machadinha, os olhos são muito grandes, sendo que algumas espécies, como as do gênero Argyropelecus possuem olhos telescópicos (figura 4).  

Quase todas as espécies de Stomiiformes possuem bioluminescência, ou seja, possuem a capacidade de produzir luz própria graças à presença de órgãos conhecidos como fotóforos. Em diversos outros peixes que apresentam bioluminescência, esta é produzida pelos fotóforos de bactérias simbióticas. No entanto, os Stomiiformes são únicos dentre os peixes por apresentarem fotóforos não-bacterianos, cujas paredes são forradas por células planas e cobertas por uma camada de pigmento, servindo como refletores. Os stomiiformes geralmente possuem os fotóforos dispostos em fileiras nas regiões ventral e lateral do corpo, enquanto na cabeça têm destaque os fotóforos maiores na região dos olhos (figura 5). Algumas espécies de peixe-dragão possuem também fotóforos nos barbilhões presentes no queixo. As luzes produzidas pelos fotóforos podem ser de cor amarela, branca, violeta ou vermelha.

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Fig. 5. Vista lateral de 4 espécies de “loosejaw”: A. Photostomias sp; B. Malacosteus niger; C. Aristostomias grimaldii; D. Pachystomias microdon. As setas vermelhas indicam a posição dos fotóforos orbitais acessórios; as setas azuis indicam a posição dos fotóforos pós-orbitais. AC = Fotóforo Orbital Acessório; PO = Fotóforo Pós-orbital; PRO = Fotóforo Pré-orbital; SO = Fotóforo sub-orbital. Fonte: Kenaly, 2010.

Uma característica importante desses peixes é que a grande maioria deles realiza uma migração vertical diária para se alimentar: durante o dia, eles permanecem em águas profundas e, quando cai o anoitecer, acompanham a diminuição da luz solar e migram para águas superficiais para caçar pequenos peixes e invertebrados planctônicos, principais componentes de sua dieta. Eles apenas retornam para as profundezas ao nascer do sol. Devido à profundidade do oceano em que vivem, e à dificuldade de se estudar esse ambiente, algumas espécies são bem raras de serem reportadas. Em contrapartida, outras espécies são bastante abundantes como por exemplo o gênero Cyclothone, que é inclusive o gênero mais abundante em número de indivíduos na natureza dentre os vertebrados atuais6.

Devido à profundidade do oceano em que vivem, e à dificuldade de se estudar esse ambiente, algumas espécies são bem raras de serem reportadas. Em contrapartida, outras espécies são bastante abundantes como por exemplo o gênero Cyclothone, que é inclusive o gênero mais abundante em número de indivíduos na natureza dentre os vertebrados atuais

Além disso, os Stomiiformes fazem parte da dieta de diversos outros animais marinhos, como atuns e golfinhos. É por essas razões que esses peixes são organismos-chave nas redes alimentares dos oceanos, transportando energia da região epipelágica (superficial) para as regiões profundas do oceano, desempenhando um papel funcional extremamente importante nesses ambientes.

 

Crédito da imagem na figura 4: SEFSC Pascagoula Laboratory; Collection of Brandi Noble, NOAA/NMFS/SEFSC – http://www.photolib.noaa.gov/htmls/fish4098.htm 

 

Referências utilizadas:

[1] Harold, A.S. and Weitzman, S.H. 1996. Interrelationships of Stomiiform Fishes. In: Stiassny, M.L.J.; Parenti, L.R. and David-Johnson, G. 1996 Interrelationships of Fishes. Academic Press Inc. San Diego, CA. pp. 333-353.

[2] Harold, A. S. 2002. Gonostomatidae (881–884), Phosichthyidae (885–888), Sternoptychidae (889–892), Astronesthidae (893–895), Chauliodontidae (896–898), Idiacanthidae (899–900), Malacosteidae (901–903), Stomiidae (904–906), and Melanostomiidae (907–912). In K. E. Carpenter (Ed.), The living marine resources of the western central Atlantic, FAO species identification guide for fishery purposes. Vol. 2. FAO, Rome.

[3] Kenaley, C.P. 2009. Revision of Indo-Pacific Species of the Loosejaw Dragonfish Genus Photostomias (Teleostei: Stomiidae: Malacosteinae) Copeia, 1:175-189.

[4] Kenaley, C.P. 2010. Comparative Innervation of Cephalic Photophores of the Loosejaw Dragonfishes (Teleostei: Stomiiformes: Stomiidae): Evidence for Parallel Evolution of Long-Wave Bioluminescence. Journal of morphology, 271:418–437.

[5] Kenaley, C.P. 2012. Exploring feeding behaviour in deep-sea dragonfishes (Teleostei: Stomiidae): jaw biomechanics and functionalsignificance of a loosejaw. Biological Journal of the Linnean Society,106: 224–240.

[6] Nelson, J.S. 2006. Fishes of the world. 4ºed. John Wiley & Sons, Inc. Hoboken, NJ. 601p.