Por Allysson Allan

Cientificamente denominada Homo sapiens, nossa espécie também é tratada como humano moderno. Perguntas como: onde, quando e como ocorreu o surgimento do Homo sapiens ainda inspiram muito debate em rodas de amigos, reuniões de família e, claro, dentro do ambiente acadêmico, especialmente em reuniões de paleoantropólogos (cientistas responsáveis por estudarem fósseis de linhagens humanas antigas). Para responder a essas questões tão intrigantes para nós, é necessário reunir evidências de diversas áreas do conhecimento, como arqueologia, genética, botânica, paleontologia, geologia e antropologia, entre outras disciplinas. Dessa forma, podemos formar um arcabouço teórico suficiente para explicar a origem e dispersão dos humanos modernos de forma interdisciplinar.

As evidências atuais baseadas em diferentes disciplinas permitiram aos paleoantropólogos definirem três hipóteses sobre como nós surgimos ao longo da história evolutiva. As possíveis respostas transformaram-se em hipóteses científicas. São elas: 1) a hipótese multirregional, 2) a hipótese da saída da África e 3) a hipótese de hibridização (figura 1). Vale ressaltar que as três hipóteses foram descritas em contextos históricos distintos, cada uma com suas limitações técnicas e materiais.

A hipótese multirregional

 A hipótese multirregional consiste em trocas frequentes de material genético entre populações de hominínios de regiões distantes. De acordo com essa hipótese, migrações frequentes ocorreram no Velho Mundo conectando diferentes populações humanas. Essas populações semi-isoladas se encontraram e geraram descendentes que formaram um contínuo genético e se modificaram, assim culminando em uma só espécie. Ainda segundo essa hipótese, a espécie humana moderna surgiu independentemente na Europa, África e Ásia, e compartilhou um conjunto semelhante de características morfológicas.

Essa hipótese foi sugerida em 1970 pelo professor Milford Wolpoff, e ficou conhecida como modelo de treliça devido à árvore filogenética parecer uma grande rede com vários eventos de troca de material genético. O Prof. Wolpoff e colaboradores consideraram o Homo erectus como o ancestral direto da nossa espécie Homo sapiens.

Baseando-se em características cranianas, existiam evidências de que o padrão morfológico de populações asiáticas de humanos modernos poderiam ser encontradas em crânios de H. erectus. Dessa forma, o H. erectus de regiões distintas poderia ter contribuído geneticamente para as populações humanas atuais asiáticas, europeias e africanas. O grande problema para aceitação dessa hipótese foi a definição de espécies hominínias suportada apenas por fósseis, em geral por características cranianas, e pela ideia equivocada de múltiplas origens da nossa espécie.

A hipótese de saída da África

Da década de 1970 até o início do século 21, outra forma de olhar a origem dos humanos modernos foi trazida pela hipótese de saída da África, que desbancou os pressupostos teóricos da hipótese multirregional e questionou o seu conjunto limitado de evidências. A hipótese da saída da África defende uma origem dos humanos modernos no continente africano com dispersões para o restante do planeta, substituindo todas as outras espécies hominínias, sem troca gênica com outras espécies durante todo esse processo. Outra peculiaridade dessa hipótese refere-se ao surgimento de nossa espécie a partir dos Homo heidelbergensis africanos, e não do Homo erectus como da hipótese anterior.

O modelo da hipótese de saída da África foi adotado até meados de 2010, quando foi sequenciado o primeiro genoma Neandertal pela equipe do Prof. Svante Päabo, que contribuiu de forma essencial para reforçar a hipótese mais sustentada atualmente: a hipótese de hibridização.

A hipótese de hibridização

Essa hipótese considera que os humanos modernos se reproduziram com hominínios de outras espécies ao longo de sua dispersão (a partir da África) para outros continentes, como Ásia e Europa. Essa hipótese contraria a de saída da África, que acredita na ausência ou baixa probabilidade de um evento de miscigenação desde a origem do Homo sapiens.

Além do genoma do Homo neanderthalensis, o genoma do Homo denisova também foi sequenciado em 2010. Ambos suportam múltiplos eventos de miscigenação entre nossa espécie e outras, mostrando, por exemplo, que a população europeia atual apresenta cerca de 2% de seu DNA de origem neandertal, e os povos que habitam a Oceania, os chamados aborígenes,apresentam por volta de 5% do genoma denisovano.

A partir dos estudos de novos fósseis e dos avanços em genômica, novas informações, que antes estavam à sombra de nosso DNA, passam a ser desvendadas, graças às técnicas moleculares.

 

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Figura 1. Diferentes hipóteses para origem da espécie Homo sapiens. Adaptado de Tryon & Bailey, 2013.

 

A genética tornou-se fundamental para destrinchar o passado da nossa espécie. Atualmente, as pesquisas concentram esforços para entender como se deu a entrada de trechos da sequência de DNA de outros hominínios em nossa espécie, e se esses blocos de DNA forneceram adaptação às condições climáticas e resistência às diversas doenças ao longo desses 300 mil anos de origem. As perguntas onde, quando e como se deu a origem da espécie Homo sapiens têm sido respondidas ao passo que novas evidências arqueológicas têm adicionado fartos complementos à hipótese de hibridização genética.

Qual o registro mais antigo de nossa espécie? O fóssil mais antigo compreendia o achado no sítio Omo na Etiópia, datado em 200 mil anos. Entretanto, em 2017, descobriram um crânio no Marrocos, encontrado no sítio arqueológico Jebel Irhoud, que elevou a idade de nossa espécie para 300 mil anos, fazendo com que a Etiópia não seja mais o berço da humanidade, mas a África como um todo (figura 2).

 

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Figura 2. Reconstrução de um dos fósseis do sítio arqueológico de Jebel Irhoud, no Marrocos. a) Vista frontal do crânio, b) Vista ventral da maxila. As regiões em azul representam a reconstrução das partes ósseas faltantes do fóssil. Fonte: Adaptado de Jean-Jacques Hublin e colaboradores (2017).

 

O primeiro passo após sair da África foi o Oriente Médio (ver texto: A primeira grande cruzada: da África ao Oriente Médio). Em Israel encontraram os fósseis mais antigos desde a saída da África, esqueletos de dois sítios arqueológicos Qafzeh e Skhul, que datam 130 e 90 mil anos, respectivamente. Todavia, no início deste ano (2018) foram encontrados fragmentos de uma arcada dentária de um humano anatomicamente moderno na caverna de Misliya também em Israel, que aumenta para 180 mil anos a datação dos vestígios dos humanos modernos mais antigos fora da África, sugerindo que nossa espécie pode ter se encontrado com outras espécies de hominínios que viveram nesta mesma época, como o H. neanderthalensis e o H. denisova.

As perguntas onde, quando e como se deu a origem da espécie Homo sapiens têm sido respondidas ao passo que novas evidências arqueológicas têm adicionado fartos complementos à hipótese de hibridização genética.

Na Europa, na Ásia e na Oceania os fósseis tiveram datações semelhantes. Na Europa, entre 150 a 30 mil anos, foram encontrados fósseis na caverna Oase na Romênia, e outros esqueletos conhecidos como Cro-Magnon encontrados na França, datados em 27 mil anos. Na Ásia, mais especificamente na China, foram encontrados humanos modernos na caverna Zhoukoudian, com 40 mil anos de idade. Entre a Ásia e a Oceania, na região da Indonésia, foi encontrado o fóssil Niah na caverna de mesmo nome, que data por volta de 40 mil anos.

No futuro, outras perguntas também poderão ser respondidas, como: será que temos alguma contribuição genética para nosso genoma do Homo naledi, descoberto em 2015 na África do Sul? Será que encontraremos contribuições de outros hominínios para nosso genoma? Existiriam ainda novas espécies fósseis de hominínios espalhadas pelo Novo Mundo?

Outras descobertas sobre os “avós” e “tataravós” (ancestrais) de nossa espécie na ordem de milhares a milhões de anos estarão presentes em um próximo texto aqui no Filos. Dentre elas, os personagens ilustres de nossa história evolutiva: o garoto de Turkana, o homem de Dmanisi e a Lucy.

E para você que se sente entusiasmado por esse assunto, o livro “Assim caminhou a humanidade” (2015) publicado pela editora Palas Athena é um bom ponto de partida para o fascinante mundo da paleoantropologia. Revela-se como o primeiro livro de evolução humana em português e de fácil linguagem para iniciantes no assunto, abordando desde primatas à domesticação de animais pela nossa espécie.

 

Para saber mais:

Tryon, C. & Bailey, S. 2013. Testing Models of Modern Human Origins with Archaeology and Anatomy. Nature, Education Knowledge.

Hublin, Jean-Jacques e colaboradores. 2017. New fossils from Jebel Irhoud, Morocco and the pan-African origin of Homo sapiens. Nature: https://www.nature.com/articles/nature22336

Hershkovitz, I. 2018. The earliest modern humans outside Africa. Science: http://science.sciencemag.org/content/359/6374/456.full

Foto de Capa: Adaptado de Chip Clark – Smithsonian Institution.