Por Rodrigo Canizo

Cebuella pygmaea é uma espécie de primata de pequeno porte, medindo até 30 cm de comprimento (da ponta do focinho à ponta da cauda) e pesando entre 85 e 140g e considerada como a menor espécie de primata das Américas[1,2]. Conhecida popularmente como “sagui-leãozinho” ou simplesmente “leãozinho”, ela é dividida em duas subespécies (C. pygmaea pygmea e C. pygmaea niveiventris) que podem ser encontradas em florestas da Região Amazônica dos estados brasileiros Acre, Amazonas e Rondônia, além de localidades do Peru, Equador e Bolívia (figura 1)[3,4].

ID_Recente_0009_Cebuella pygmaea_Figura 1 – Fonte (RYLANDS et al., 2009)
Figura 1. Distribuição das duas subespécies de Cebuella pygmaea na Região Amazônica: em cinza escuro, a distribuição de C. pygmaea pygmaea; em cinza claro, a distribuição de C. pygmaea niveiventris. Fonte: RYLANDS et al., 2009.

C. pygmea (figura 2) apresenta uma variação de coloração da pelagem ao longo do corpo, com a pelagem da cabeça e pescoço variando do marrom-escuro ao cinza, o dorso acinzentado ou castanho amarelado, a pelagem da barriga pode variar do branco ao castanho amarelado, as mãos e pés amarelados ou alaranjados e a cauda possui anéis pretos e castanho-amarelados intercalados.

ID_Recente_0009_Cebuella pygmaea_Figura 2 – Foto por Rodrigo Canizo
Figura 2. Cebuella pygmaea. Foto: Rodrigo Canizo.

O leãozinho não possui tufos na face, como no gênero Callitrix (“sagui-de-tufo” ou “mico-estrela”) e os pelos são longos e voltados para trás, escondendo as orelhas e formando uma “juba” conspícua e um manto nos ombros, daí o seu nome bem característico[5].

O leãozinho é considerado a espécie de alimentação mais especializada entre os primatas do Novo Mundo (aqueles restritos às Américas – veja mais sobre os grupos de primatas em “Os macacos e a Febre Amarela”), devido ao seu elevado grau de consumo de exsudatos (goma ou seiva das árvores)[6]. Por apresentar essa especialização na dieta, o leãozinho não compete (ou, pelo menos, reduz a competição potencial) com outras espécies de primatas (figura 3), uma vez que poucas também se alimentam de exsudatos, como o soim-vermelho (Saguinus weddelli) e o bigodeiro (Saguinus imperator)(7) .

ID_Recente_0009_Cebuella pygmaea_Figura 3 – Saguinus imperator (Tomaz Nascimento) – Saguinus weddelli e Cebuella pygmaea (Rodrigo Canizo)
Figura 3. (A) Saguinus imperator; (B) Saguinus weddelli e; (C) Cebuella pygmaea se alimentam nos orifícios de exsudatos feitos por C. pygmaea nas árvores. Fotos: Rodrigo Canizo.

O leãozinho não possui tufos na face e os pelos são longos e voltados para trás, escondendo as orelhas e formando uma “juba” conspícua e um manto nos ombros, daí o seu nome bem característico

A espécie C. pygmea normalmente apresenta dois picos reprodutivos por ano[8,9], com filhotes medindo entre 12 a 14 cm e pesando entre 13 a 15g. É comum as gestações gerarem irmãos gêmeos[8]. Apesar de C. pygmaea ser uma espécie bem distribuída ao oeste da Região Amazônica, poucos estudos em campo sobre sua ecologia e comportamentos foram realizados até hoje, evidenciando assim uma necessidade de esforço de pesquisas acerca dessa e de várias outras espécies da nossa fauna.

ID_Recente_0009_Cebuella pygmaea_Figura 4_por Henrik Sundén
Figura 4. Um indivíduo macho adulto de C. pygmaea. Foto: Rodrigo Canizo.

O acelerado processo de destruição de habitats e a captura de exemplares de diversas espécies para servirem como alimento para o ser humano ou simplesmente como pets são algumas das principais ameaças à sobrevivência dos mamíferos e, sobretudo, das espécies de primatas em diversos fragmentos da Amazônia[10,11], incluindo o leãozinho.

Felizmente, esta espécie apresenta uma boa adaptação a habitats alterados, podendo ser encontrada tanto em áreas degradadas quanto em florestas preservadas, colonizando bordas de florestas e áreas de capoeira (vegetação secundária, floresta em recuperação), muitas vezes próximo a habitações humanas[8]. Essa proximidade facilita a captura e criação de animais silvestres em residências urbanas, sendo essa uma prática bastante comum em algumas localidades amazônicas [12].

Essa proximidade [com habitações humanas] facilita a captura e criação de animais silvestres em residências urbanas, sendo essa uma prática bastante comum em algumas localidades amazônicas

Conhecer as espécies que fazem parte da nossa fauna contribui para o aumento do nível de informações que podem auxiliar futuros planos de conservação, preservação e manejo das espécies, em especial para C. pygmaea. Visando à conservação desta espécie a longo prazo, ações de manutenção dos fragmentos florestais, assim como das florestas nativas, devem ser empregadas, através da efetiva criação e implementação de áreas destinadas a serem Unidades de Conservação da natureza.

 

Referências

 [1] TOWNSEND, W. R. Callithrix pygmaea. Mammalian Species, n. 655, p. 1–6, 2001.

 [2] ANKEL-SIMONS, F. Primate Anatomy: An Introduction. 3. ed. Durnhan, North Carolina: Elsevier, 2007.

 [3] RYLANDS, A. B.; COIMBRA-FILHO, A. F.; MITTERMEIER, R. A. The systematics and distributions of the marmosets (Callithrix, Callibella, Cebuella, and Mico) and Callimico (Callimico) (Callitrichidae, Primates). In: S. M. FORD; L. M. PORTER; L. C. DAVIS (Eds.), The Smallest Anthropods: The marmosets/Callimico radiation. New York: Springer, 2009, p. 25–61.

[4] MESSIAS, M. R.; CORAGEM, J. T.; GOMES, I. S. R.; OLIVEIRA, M. A. BONAVIGO, P. H.; NIENOW, S. S.; SOUZA, E. S. Southern extension of the geographical range of the pygmy marmoset Cebuella pygmaea niveiventris (Lönnberg, 1940) in the southwestern Amazon basin, State of Rondônia, Brazil. Neotropical Primates, v. 18, p. 30–31, 2011.

[5] AURICCHIO, P. Primatas do Brasil. São Paulo: Editora Terra Brasilis, 1995.

[6] POWER, M. L.; OFTEDAL, O. T. Differences among captive callitrichids in the digestive responses to dietary gum. American Journal of Primatology, v. 40, p. 131–144, 1996.

[7] CANIZO, R.; CALOURO, A. M. Consumo de exsudatos por Cebuella pygmaea e outros mamíferos em um fragmento florestal no Sudoeste da Amazônia. Neotropical Primates, v. 22, p. 45–46, 2015.

[8] SOINI, P. Ecology and population dynamics of the pygmy marmoset, Cebuella pygmaea. Folia Primatologica, v. 39, p. 1–21, 1982.

[9] STRIER, K. B. Primate Behavioral Ecology. 3. ed. Boston: Allyn and Bacon, 2007.

[10] JOHNS, A. D.; SKORUPA, J. P. Responses of rain-forest primates to habitat disturbance: A review. International Journal of Primatology, v. 8, p. 157–191, 1987.

[11] MARSH, L. The nature of fragmentation. In: L. Marsh (Ed.), Primates in Fragments: Ecology and Conservation. New York: Kluwer Academic/Plenum, 2003, p. 1–10.

[12] CALOURO, A. M.; LOPES, D. C. S. Habitantes “clandestinos” de Rio Branco. Ciência Hoje, v. 27, p. 54–56, 2000.