Por: Bruno Gonçalves Augusta

Pode parecer algo simples para nós, humanos, mas o processamento alimentar intra-oral, isto é, a capacidade de mastigar a comida ingerida, tocando os dentes da arcada superior com os dentes da arcada inferior, é um comportamento bem raro no mundo animal, sendo presente na maioria dos mamíferos atuais. Entretanto, cerca de 80 milhões de anos atrás, um grupo de crocodilos extintos conhecidos como notossúquios apresentava espécies com uma capacidade única de processar a comida dentro da boca, tornando-os capazes de mastigar a comida quase tão bem como os mamíferos fazem atualmente¹. Dentro deste grupo, um pequeno animal com cerca de um metro de comprimento e que vivia em um ambiente semi-árido, próximo de onde é atualmente a cidade de Marília, no interior do Estado de São Paulo, tinha esse hábito.

 

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Figura 1 – Reconstrução paleontológica de Mariliasuchus amarali. Ilustração de Nobu Tamura (http://spinops.blogspot.com).

 

A característica mais marcante de Mariliasuchus amarali é a sua dentição, formada por quatro tipos diferentes de dentes, os incisiviformes, os caniniformes, os dentes de transição e os molariformes (Figura 2), cada um com uma função diferente: os incisiviformes serviam para pegar os alimentos na ponta do focinho, os caniniformes poderiam cortar grandes pedaços de carne ou até arrancar raízes do solo, os dentes de transição iniciavam o corte dos alimentos em pedaços menores e os molariformes, localizados no fundo da boca, eram os grandes responsáveis pela mastigação, com os dentes da arcada superior raspando lateralmente nos dentes da arcada inferior e macerando o alimento em pedaços cada vez menores². Mariliasuchus tinha provavelmente uma alimentação onívora, ou seja, sua dieta incluía tanto carne quanto plantas³.

 

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Figura 2 – Tomografia computadorizada do crânio de Mariliasuchus amarali, exemplar inserido na coleção de Paleontolgoia do Museu de Zoologia da USP. Os dentes estão coloridos de acordo com a sua categoria: incisiviformes na cor roxa, caniniformes na cor verde, dentes de transição na cor azul e molariformes na cor laranja. Crédito: Bruno Gonçalves Augusta.

 

Todos os indivíduos conhecidos de Mariliasuchus amarali foram encontrados próximos à cidade de Marília (daí o seu nome, Mariliasuchus, ou seja, “crocodilo de Marília”, em latim, e amarali, em homenagem ao paleontólogo Sérgio Estanislaw do Amaral).

Uma outra característica marcante desse fóssil é que foram encontrados diversos indivíduos em diferentes estágios de desenvolvimento: juvenis, adultos jovens e adultos “maduros” (Figura 3). A análise destes diferentes espécimes possibilitou o estudo sobre como esse crocodilo se desenvolvia ao longo de sua vida, desde o seu nascimento até a vida adulta4,5. Pesquisas desse tipo, que são chamadas ontogenéticas, ajudam os cientistas a compreender como os animais modificavam sua anatomia e comportamento ao longo de seu crescimento, bem como questões sobre a evolução do grupo e sobre a ecologia de adultos e filhotes. No caso de Mariliasuchus, tanto adultos como filhotes provavelmente tinham uma dieta muito semelhante, comendo tudo o que tivesse pela frente e que coubesse em suas bocas! Isso provavelmente ajudaria o animal a sobreviver num ambiente com poucos recursos, de clima semi-árido, como era a Formação Bauru, onde hoje é o Estado de São Paulo, cerca de 80 milhões de anos atrás5.

 

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Figura 3 – Diferentes indivíduos de Mariliasuchus amarali alinhados por ordem de tamanho, do menor (A) para o maior (F). Escala = 5cm. Fotos por: Bruno Gonçalves Augusta.

 

Crédito da imagem de capa: Felipe Alves Elias / Paleozoobr: https://www.paleozoobr.com.

 

Principais referências:

¹O’CONNOR, P. M.; SERTICH, J.J.W.; STEVENS, N.J.; ROBERTS, E.M.; GOTTFRIED, M.D.; HIERONYMUS, T.L.; JINNAH, Z.A.; RIDGELY, R.; NGASALA, S.E. & TEMBA, J. 2010. The evolution of mammal-like crocodyliforms in the Cretaceous period of Gondwana. Nature, 466: 748-751.

²ZAHER, H.; POL, D.; CARVALHO, A.B.; RICCOMINI, C.; CAMPOS, D. & NAVA, W. 2006. Redescription of the cranial morphology of Mariliasuchus amarali, and its phylogenetic affinities (Crocodyliformes, Notosuchia). American Musem Novitates, 3512: 1-40.

³NOBRE, P.H.; CARVALHO, I.S.; VASCONCELOS, F.M. & SOUTO, P.R. 2007b. Feeding behaviour of the gondwanic Crocodylomorpha Mariliasuchus amarali from the Upper Cretaceous Bauru Basin, Brazil. Gondwana Research, 13: 139-145.

4VASCONCELLOS, F.M. & CARVALHO, I.S. 2005. Estágios de desenvolvimento de Mariliasuchus amarali, Crocodyliformes Mesoeucrocodylia da Formação Adamantina, Cretáceo Superior da Bacia Bauru, Brasil. Anuário do Instituto de Geociências, 28(1): 49-69.

5AUGUSTA, B.G. 2013. Revisão sistemática e ontogenética dos materiais cranianos atribuídos ao gênero Mariliasuchus (Crocodyliformes, Notosuchia) e suas implicações taxonômicas e paleobiológicas. Dissertação de Mestrado, Universidade de São Paulo, 303 p.