Por: Renata Fadel e Leandro Silva

O coaxar dos anfíbios está entre as características mais incríveis desse grupo. A variedade de cantos é tão grande que conhecemos diversas onomatopeias para descrevê-los (por exemplo: “Coach, coach”; “Urebit, Urebit”). Convidamos você para conhecer um pouco mais sobre esse mundo extraordinário! Neste texto, abordaremos: 1) como os anfíbios cantam, 2) por que eles cantam e 3) por que há uma variedade tão grande de cantos.

Como os anuros cantam?

Os anfíbios constituem um grupo de animais que surgiu no Período Devoniano, sendo os primeiros vertebrados a colonizarem o ambiente terrestre. As espécies de anfíbios que existem atualmente (muitos grupos de anfíbios já foram extintos ao longo dos milhões de anos que sucederam sua origem) são divididas em três grandes grupos: 1) as cecílias (ordem Gymnophiona, figura 1A; 2) as salamandras (ordem Urodela, figura 1B e 3) as pererecas, sapos e rãs (ordem Anura), figura 1C. Como o assunto que vamos tratar é o canto (ou vocalização), vale ressaltar que o único grupo de anfíbios capaz de emitir esses sons são as espécies da ordem Anura, ou seja, os sapos, rãs e pererecas. Mas como eles conseguem emitir esses sons? Será que eles têm cordas vocais como a gente?

Esse movimento de saída e entrada de ar através das fendas vocais, localizadas na região gular, produz o canto desses animais.

 

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Figura 1. Os três grandes grupos de anfíbios: a) Espécie de cecília: Siphonops paulensis (Foto: Leandro Silva); b) Espécie de salamandra Bolitoglossa altamazonica (Foto: Renato Martins); c) Espécie de perereca Dendropsophus anataliasiasi (Foto: Renata Fadel).

Basicamente, a vocalização dos anuros é produzida a partir do movimento de ar que sai dos pulmões, passa pela cavidade bucal e entra no saco vocal. Pulmão e boca todos nós conhecemos, mas o que seria esse saco vocal? Essa estrutura realmente se assemelha a um saco, e fica localizada na região gular do animal (figura 2). Esse saco recebe o ar que vem dos pulmões por meio de dois orifícios localizados na base da boca dos anuros, os quais são chamados de fendas vocais. Assim, para cantar, o indivíduo infla os pulmões e contrai os músculos do tronco forçando a saída do ar em direção ao saco vocal. Esse movimento de saída e entrada de ar através das fendas vocais, localizadas na região gular, produz o canto desses animais.

 

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Figura 2. Região gular representada em um indivíduo de Aplastodiscus leucopygius (Foto: Renata Fadel).

 

A diversidade de cor, tamanho e forma do saco vocal é impressionante. A maioria dos anuros possui saco vocal simples, enquanto outros apresentam saco vocal duplo. Há também espécies capazes de emitir o som inflando o saco vocal de maneira quase imperceptível (figura 3).

 

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Figura 3. Indivíduos de anuros com o saco inflado no momento da vocalização. a) Dendropsophus anataliasiasi (Foto: Renata Fadel); b) Trachycephalus typhonius (Foto: Leandro Silva); c) Scinax fuscomarginatus (Foto: Leandro Silva); d) Rhinella mirandaribeiroi (Foto: Leandro Silva); e) Physalaemus cicada (Foto: Diego Santana); f) Hylodes asper (Foto: Rachel Montesinos).

 

Por que os anuros cantam?

A maioria dos anuros são ativos durante a noite, e passariam despercebidos se não fosse a cantoria. Embora a maioria das pessoas saibam que os anfíbios cantam para atrair uma parceira para o acasalamento, poucos sabem que existem outros tipos de cantos além daquele direcionado à reprodução. Basicamente, existem quatro tipos de vocalizações mais comuns entre os anfíbios, que os cientistas classificam como: canto de anúncio, canto territorial, canto de soltura e canto agonístico.

O canto de anúncio evidencia que os machos estão reprodutivamente ativos, auxiliando-os a encontrar fêmeas, pois cada espécie emite um som característico e diferente das demais. Esse tipo de vocalização também indica características como tamanho e peso do indivíduo que está vocalizando (Vídeos 1, 2 e 3).

 

Vídeo 1: Espécie de perereca vocalizando sobre a vegetação em um brejo (Scinax fuscomarginatus) (Créditos: Renata Fadel).

 

Vídeo 2: Espécie de rã com cerca de 2 cm que vocaliza no chão de áreas alagadas (Pseudopaludicola canga) (Créditos: Renata Fadel).

 

Vídeo 3: Espécie de rã que vocaliza sobre rochas localizadas em rios com água corrente (Hylodes asper) (Créditos: Rachel Montesinos).

 

Já o canto territorial tem como principal função a defesa do território e o espaçamento entre os machos de um mesmo ambiente (por exemplo, uma lagoa). Ao emitir este tipo de canto, o macho residente sinaliza ao intruso que percebeu sua presença e que está disposto a enfrentá-lo, caso a invasão prossiga (Vídeo 4).

 

Vídeo 4: Espécie de rãzinha Allobates crombiei vocalizando próximo do local onde os pesquisadores soltaram o playback para estimular o canto territorial, pois trata-se de uma espécie territorialista (Créditos: Renata Fadel).

 

Há também o canto de soltura, que pode ser emitido por machos quando são abraçados por outro macho. Sua função é avisar que o indivíduo abraçado ou tocado não corresponde a uma fêmea em fase reprodutiva (Vídeo 5).

 

Vídeo 5: Espécie de sapo Rhinella marina emitindo o canto de soltura em resposta ao manuseio do pesquisador (Créditos: Leandro Silva).

 

Por fim, existe um tipo de canto em que tanto os machos quanto as fêmeas (e até mesmo jovens) emitem: o canto agonístico. São vocalizações normalmente altas e emitidas de forma explosiva, em resposta a distúrbios ou ataques de predadores potenciais. Suas funções possíveis seriam de advertir outros indivíduos da presença de um predador; assustar predadores que se orientam através da audição ou atrair um predador secundário capaz de interferir no processo predatório, livrando a presa da predação (Vídeo 6). Além disso, esse tipo de vocalização também pode ser emitido quando nós manipulamos os indivíduos (Vídeo 7).

 

Vídeo 6: Espécie de cobra d’água (Helicops) predando a espécie de rã Leptodactylus chaquensis (Créditos: Leandro Alves).

 

Vídeo 7: Espécie de perereca Boana raniceps sendo manuseada por um pesquisador (Créditos: Leandro Alves).

 

Por que existem tantos tipos de canto de anúncio?

Dezenas de espécies de anuros podem ocorrer em uma mesma área e, muitas vezes, essas espécies são anatomicamente muito parecidas. Então, como as fêmeas poderiam escolher o par perfeito para o acasalamento? Cada espécie possui uma vocalização própria, com frequência e duração diferentes. Essas características são essenciais para as fêmeas reconhecerem os machos da mesma espécie. Além disso, os cientistas utilizam a vocalização como uma importante fonte de evidência para identificação das espécies.

Para diferenciar e classificar todos os tipos de cantos dos anuros, os herpetólogos passam muito tempo observando os indivíduos e ouvindo e/ou gravando as vocalizações nos campos noturnos para, posteriormente, analisar suas características e frequências em laboratório. Desta forma, é possível saber quais e quantas espécies estavam cantando e se há novos sons a serem estudados. Além disso, os próprios herpetólogos disponibilizam na internet um banco de dados com inúmeras vocalizações dos indivíduos,  que auxiliam cientistas e entusiastas no assunto a identificarem as espécies a partir do seu canto (por exemplo: https://ppbio.inpa.gov.br/sapoteca e https://www2.ib.unicamp.br/fnjv/).

Além disso, os cientistas utilizam a vocalização como uma importante fonte de evidência para identificação das espécies.

 

Os anuros são animais incríveis e muitas espécies são de fácil observação justamente porque na época reprodutiva formam um coro, que muitas vezes chega a ser ensurdecedor! Aproveite os vídeos de algumas espécies vocalizando que apresentamos aqui para aprender um pouco sobre a variedade de cantos que existem, como os sacos vocais inflam e a diversidade de cores e formatos. Divirtam-se!

Principais referências:

Frank Blair. (1964). Isolating Mechanisms and Interspecies Interactions in Anuran amphibians. The Quarterly Review of Biology 39, no. 4: 334-344.

Elizabeth J. Garcia-Rutledge & Narins, P. (2001). Shared Acoustic Resources in an Old World Frog Community. Herpetologica, 57(1), 104-116.

Starnberger, I., Preininger, D., & Hödl, W. (2014). The anuran vocal sac: a tool for multimodal signalling. Animal behaviour97, 281-288.

Wikipédia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Gymnophiona. Acessado em 26/02/2018.

Wikipédia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Caudados. Acessado em 26/02/2018.

Wikipédia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Anura. Acessado em 26/02/2018.