No dia 8 de maio de 1948, foi criada a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Por esse motivo, 50 anos depois, a data foi instituída como Dia Nacional do Pesquisador e Dia Nacional da Ciência.

Em um momento tão obscuro para o progresso da ciência no país (terra plana, criacionismo, movimentos antivacina crescendo por aí….), fomos conversar com a Márcia Cristina Bernardes Barbosa, professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências.

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Crédito: Arquivo pessoal. Brasília, 2018.

Márcia é formada em física pela UFRGS, com mestrado e doutorado na mesma área, e trabalha com água e suas anomalias e soluções aquosas. Recebeu, em 2013, dois prêmios voltados à produção científica feminina, o Prêmio L’Oréal-UNESCO para mulheres na ciência e o Prêmio Cláudia. Foi agraciada, ainda, com a Medalha Nicholson, em 2009, pela sua atuação em questões de gênero na ciência. É pesquisadora nível 1B do CNPq, membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, integrante da Sociedade Americana de Física (APS, na sigla em inglês) e da Sociedade Brasileira de Física.

Confira a entrevista abaixo:

Filos (F): Como a Sra. vê a pesquisa brasileira hoje?
Márcia Barbosa (MB): A pesquisa no Brasil tem crescido tanto em volume como em impacto internacional. Desde a criação do CNPq e da Capes, o Brasil vinha ampliando a pesquisa, mas tínhamos números ainda pequenos de pesquisadores e de recursos humanos com graduação particularmente nas exatas. Reconhecendo isto, durante o governo Lula, particularmente durante as gestões de Eduardo Campos e Sergio Rezende como ministros de Ciência e Tecnologia, tivemos financiamento regular e ininterrupto, o que levou a uma ampliação de laboratórios, linhas de pesquisa, formação de pessoal, etc. Para ampliar ainda mais a formação de recursos humanos, surgem o Reuni, os Institutos Federais, e políticas de ampliação do sistema universitário. Hoje, em termos de pessoal colhemos os frutos deste processo. Se hoje temos uma ciência com impacto, se deve a este plano. Infelizmente, a partir de 2016 com a deposição da presidente Dilma, este plano deu lugar a um projeto que não vê o Brasil como protagonista.

F: A Sra. acha que a Academia Brasileira de Ciências tem papel importante nas políticas de CTIC?
MB: A Academia Brasileira de Ciências tem sido uma voz constante a pleitear uma ciência que leve ao desenvolvimento do Brasil. Não somente pedimos recursos, clamamos por um projeto de nação. Para pavimentar um potencial projeto, temos produzido estudos, conferências e documentos específicos que vão de temas como epidemias, sistema hídrico, aquecimento global, profissões do futuro, desigualdade… Para que a nação compreenda que ciência gera desenvolvimento, criamos uma campanha que inicia com o vídeo de mesmo nome que narra como as descobertas de uma cientista que atuava na Embrapa e na Rural do Rio de Janeiro, a Johanna Dobeheimer, levou o Brasil a se tornar o segundo produtor de soja do mundo. Ela fez isto diminuindo a necessidade de uso de adubos e defensivos. Sim, com ciência precisamos de menos veneno na nossa comida.

Se hoje temos uma ciência com impacto, se deve a este plano [dos incentivos à ciência a partir do governo Lula]. Infelizmente, a partir de 2016 com a deposição da presidente Dilma, este plano deu lugar a um projeto que não vê o Brasil como protagonista

F: O que acha dos cortes que vêm sendo feitos em Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (CTIC)?
MB: Os cortes são coerentes com uma visão equivocada de que o Brasil não precisa de ciência. Há uma classe de pessoas no Brasil que nos veem como um país produtor de commodities e que não necessitamos gerar ciência e tecnologia. Estas pessoas ignoram que mesmo para produzir commodities ciência e tecnologia são necessárias. Imaginam que o Brasil possa passar de uma país subdesenvolvido para uma país de serviços. Só que não há nação no mundo que tenha passado diretamente para ser uma nação produtora de serviços sem ter passado pela revolução tecnológica. Eu não me refiro somente à revolução industrial, mas tecnológica, pois mesmo na agricultura, tecnologia é fundamental.

F: Existe um abismo hoje entre a sociedade, os políticos e a comunidade científica. Como a Sra. acha que a comunidade científica pode contornar esse problema? Acredita que políticas de divulgação e comunicação da ciência são efetivas?
MB: Existe um abismo no Brasil entre os que têm e os que não têm. Os poucos de nós que têm acesso ao conhecimento, particularmente aqueles como eu que adquiriram este conhecimento graças aos impostos pagos pelos que não têm, temos a obrigação de fazer a melhor ciência que pudermos e divulgar.
Divulgação científica não é esmola dos que tem para os que não tem, é prestação de contas para o nosso patrão que é o povo brasileiro.

Não há nação no mundo que tenha passado diretamente para ser uma nação produtora de serviços sem ter passado pela revolução tecnológica.

F: O que acha da avaliação Qualis das revistas? Por serem tão distintas, algumas áreas sofreram mais com essa avaliação, principalmente com o fechamento de periódicos nacionais. Acredita que o Qualis cumpriu o objetivo inicial, que era aumentar a visibilidade da produção científica nacional ou não?
MB: O Qualis cumpriu o objetivo de dar um direcionamento à produção nacional. O instrumento, no entanto, que deu mais padrão às publicações nacionais foi o Scielo. Recentemente, a bibliotecária Cleusa Pavan mostrou em sua tese de doutorado que o fato de termos o Scielo foi um ingrediente importante para a expansão do Brasil no acesso aberto (o Brasil é o país de maior produção percentual de acesso aberto do mundo) o que ocorreu justamente graças às revistas nacionais que devido ao Scielo passaram a ser indexadas.

F: O Qualis é uma iniciativa válida?
MB: Claro. Temos que determinar algum padrão para a publicação da produção nacional.

O Brasil é o país de maior produção percentual de acesso aberto do mundo

F: O que acha dos cortes no CNPq?
MB: Justamente no momento em que estudantes que entraram nas universidades no período da expansão do Reuni chegam para a pós-graduação, as bolsas diminuem, o financiamento para a pesquisa é deteriorado. A ciência brasileira é como o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima que foi empurrado na maratona. A nossa corrida estava rumo à vitória….

F: Como vê os comitês científicos do CNPq? Eles vêm sofrendo com o contingenciamento?
MB: O CNPq foi fundado com a ideia de um projeto de ciência nacional. Ao longo de sua história tem servido para montar o lastro para que possamos fazer uma ciência comprometida com o país. Os comitês do CNPq, somos nós e, portanto, tentam desenvolver políticas para uma ciência nacional de ponta. No entanto, é impossível fazer isto em um momento em que o órgão passou para a terceira divisão.

A ciência brasileira é como o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima que foi empurrado na maratona. A nossa corrida estava rumo à vitória….

F: Como é a diversidade nos comitês científicos do CNPq (ou de outras agências)? Existe uma preocupação em discussões relacionadas a gênero, etnia ou região geográfica? Existem políticas de inclusão (como por meio de cotas) na seleção de projetos prioritários para serem financiados?
MB: No Brasil os comitês se preocupam com uma diversidade regional, mas ignoram a necessidade de qualquer outro tipo de diversidade. Há uma crença de que não temos necessidade disto, por sermos um país ‘sem preconceito’. Infelizmente os números mostram o contrário. Quem duvidar olhe os números explicitados em nosso artigo recente[1].

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Crédito: Abbott. 2016.

F: Quais são as perspectivas futuras do ambiente acadêmico brasileiro? Acredita que exista um movimento de evasão dos pesquisadores? Como as políticas podem ajudar no sentido contrário (para a promoção de capacitação de profissionais no país)?
MB: Os pesquisadores mais jovens estão sem perspectivas. Quem tem contatos vai embora e quem precisa ficar no Brasil criou uma nova categoria: o PhD UBER.

 

Referências utilizadas:

[1] N. C. Ferrari, R. Martell, Daniela H. Okido, Grasiele Romanzini, Viviane Magnan, Marcia C. Barbosa. 2018. Geographic and Gender Diversity in the Brazilian Academy of Sciences. Anais de Academia Brasileira de Ciências, Epub Jun 25. http://dx.doi.org/10.1590/0001-3765201820170107

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC): http://portal.sbpcnet.org.br/noticias/sbpc-celebra-seus-70-anos-neste-domingo-com-manifestacoes-em-prol-da-ciencia-e-da-educacao/

Currículo Lattes da pesquisadora

Academia Brasileira de Ciências (ABC): http://www.abc.org.br/membro/marcia-cristina-bernardes-barbosa/

Reuni: http://reuni.mec.gov.br/o-que-e-o-reuni

Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação: http://www.mctic.gov.br/portal

Scielo Brasil: http://www.scielo.br

http://www.ufrgs.br/ufrgs/noticias/marcia-barbosa-recebe-hoje-premio-loreal-unesco-para-mulheres-na-ciencia

http://www.loreal.com.br/responsabilidade-corporativa/a-fundação-l’oréal/ciência/as-mulheres-e-a-excelência-cient%C3%ADfica/prêmio-l’oréal-unesco-2013