Por André Cattaruzzi

 Há 290 milhões de anos, em uma localidade onde hoje é território da Alemanha, um pequeno réptil de aproximadamente 25 centímetros se destacava dos outros animais. Suas longas pernas evidenciavam que este pacato animal poderia correr de maneira bípede. Tal característica era um trunfo que permitia a essa esbelta figura escapar dos grandes predadores quadrúpedes da época. Esse animal foi batizado de Eudibamus cursoris1 (figura 1A). Mas, afinal, que tipo de animal era ele? Introduzimos aqui os enigmáticos bolossaurídeos!

Os bolossaurídeos são um grupo de animais ainda pouco conhecido. Seus fósseis são raros e, na maioria das vezes, incompletos. Os restos de bolossaurídeos são reconhecíveis devido ao formato característico de seus dentes, que possuíam uma alta crista (cúspide) associada a uma base achatada (figura 1C e D). Quando estes animais fechavam a boca, havia a chamada oclusão, ou seja, um encaixe bem definido entre os dentes superiores e inferiores que permitia cortar e triturar o alimento. Essa morfologia está associada aos hábitos herbívoros.

Quando estes animais fechavam a boca, havia a chamada oclusão, ou seja, um encaixe bem definido entre os dentes superiores e inferiores que permitia cortar e triturar o alimento

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Figura 1. Fósseis de bolossaurídeos. A: exemplar de Eudibamus, retirado de 1. B: crânio de Belebey vegrandis da Rússia, foto por Christian Kammerer. C e D: mandíbulas dos bolossaurídeos Belebey vegrandis e Bolosaurus grandis. Retirado de 3. Notar a crista associada com uma plataforma mais achatada em cada dente.

Apesar de raros, os fósseis desse grupo possuem distribuição ampla, tendo sido encontrados nos EUA (Estados do Texas, Oklahoma e Novo México), Alemanha, França, China e Rússia, em rochas de idades entre 300 e 265 milhões de anos. Atualmente, sete espécies de bolossaurídeos são reconhecidas2 e estudos recentes indicam que estes animais pertencem ao grupo dos pararrépteis, assim como os Mesossaurídeos (ver o texto Mesossauros), comuns aqui no Brasil (figura 2).

Os pararrépteis, grupo bastante diverso nos períodos Permiano e Triássico, não possuem relação com nenhum grupo de répteis atuais. Até poucos anos atrás, as hipóteses filogenéticas colocavam as tartarugas em associação a dois grupos de pararrépteis, os procolofonídeos e os pareiassaurídeos, mas novos achados fósseis, bem como dados moleculares, obtidos através da análise do DNA das espécies de tartarugas atuais, indicam que elas estão dentro dos diápsidas, juntamente com todas as formas de répteis atuais e as aves (figura 2) (ver texto Origem das Tartarugas).

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Figura 2. Relações filogenéticas dos primeiros répteis. Sinápsida por Nobu Tamura, modificado por T. Michael Keesey. Diápsida, e Bolossaurídeo por Nobu Tamura. Mesossaurídeo e Procolofonídeo por Nobu Tamura, vetorizado por A. Verriére. Captorrinídeo por Steven Blackwood. Pareiassaurídeo por Chris Jennings (vectorized by A. Verrière). CC-BY-NC-AS 3.0. Cortesia de www.phylopic.org.

Até o momento, somente Eudibamus possui um esqueleto suficientemente completo, portanto não podemos concluir se o comportamento bípede era único dessa espécie ou dos bolossaurídeos em geral.

As pernas do Eudibamus são mais longas que os seus braços, e de acordo com o formato dos ossos da coxa e da cintura pélvica, o animal poderia correr com os membros posicionados verticalmente (postura parassagital) (figura 3). Isso contrasta com a maioria dos répteis –inclusive lagartos e jacarés–, cujos membros são direcionados para a lateral do corpo. Uma forma de locomoção similar ao Eudibamus só apareceria 50 milhões de anos mais tarde com as primeiras formas relacionadas aos dinossauros, os chamados Ornitodiros.

As pernas do Eudibamus são mais longas que os seus braços, e de acordo com o formato dos ossos da coxa e da cintura pélvica, o animal poderia correr com os membros posicionados verticalmente

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Figura 3. Comparação de pernas direitas de répteis primitivos em vista posterior. A: Eudibamus. B: Petrolacosaurus. C: Paleothyris. D: Captorhinus. Retirado de 1. Notar como os membros dos três últimos se estendem para o lado, assim como em lagartos e crocodilos, enquanto a postura de Eudibamus é praticamente vertical.

A causa da extinção dos bolossaurídeos ainda é um mistério para os paleontólogos. Mas, por terem sobrevivido por mais de 35 milhões de anos e terem se espalhado por pelo menos três continentes, o que se imagina é que estes animais foram bem sucedidos e, ao menos o gênero Eudibamus, pioneiro em uma forma de locomoção posteriormente adotada por outros grupos evolutivamente bem sucedidos: os dinossauros e suas descendentes, as aves.

Referências utilizadas:

 [1] Berman, D. S., Reisz, R. R., Scott, D., Henrici, A. C., Sumida, S. S., & Martens, T. (2000). Early Permian bipedal reptile. Science, 290(5493), 969-972.

[2] Falconnet, J. (2012). First evidence of a bolosaurid parareptile in France (latest Carboniferous-earliest Permian of the Autun basin) and the spatiotemporal distribution of the Bolosauridae. Bulletin de la Société géologique de France, 183(6), 495-508.

[3] Reisz, R. R., Barkas, V., & Scott, D. (2002). A new Early Permian bolosaurid reptile from the Richards Spur Dolese Brothers Quarry, near Fort Sill, Oklahoma. Journal of Vertebrate Paleontology, 22(1), 23-28.

Capa: Retirada de 1