Por Vitor P. Abrahão

O candiru-açu (Cetopsis coecutiens) é um peixe muito peculiar e temido no imaginário popular. Apesar dele sempre ser confundido com outro peixe com quase o mesmo nome, o “candiru” (gênero Vandellia – família Trichomycteridae), aquele que pode entrar pela uretra causando um incômodo inimaginável, o candiru-açu faz parte de um grupo de peixes diferente, a família Cetopsidae.

Além do nome candiru-açu, esse peixe possui outros nomes populares nos locais onde a espécie pode ser encontrada, como “candiru” e “piracatinga” no Brasil, e bagre ciego” e “canero” na Colômbia e Peru, respectivamente. Apesar dos diferentes nomes, em todos os lugares esses peixes são igualmente temidos por seus hábitos alimentares. São comuns os relatos de mordidas em formato circular, principalmente na região inferior do corpo (pernas e glúteos). O formato arredondado é a maior prova de que o dono da mordida foi um candiru-açu.

Essa espécie possui uma série de adaptações bucais, com dentes especializados para arrancar grandes pedaços de carne, além de músculos poderosos que auxiliam no abrir e fechar das mandíbulas.

Apesar desses infelizes encontros acidentais com humanos, é importante esclarecer que nós não fazemos parte do cardápio principal dessa espécie. O candiru-açu possui hábito alimentar onívoro, ou seja, se alimenta de praticamente tudo que encontrar nos rios, desde pequenos invertebrados até peixes vivos e mortos. São vorazes predadores dos rios amazônicos, devorando em poucos minutos as carcaças de grandes peixes, com uma especialização interessante: o candiru entra no corpo da presa por algum orifício natural ou produzido por sua mordida, comendo-a de dentro pra fora.

 

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Figura 1: a) Candiru-açu (Cetopsis coecutiens); b) detalhe da boca. Fotos: Ben Cantrell.

O Cetopsis coecutiens é uma espécie endêmica da Amazônia, se distribuindo pelos rios do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, podendo atingir mais de 30 centímetros. Essa espécie possui hábito noturno, mas também pode ser encontrada durante o dia. Ela é praticamente cega, possui uma camada de pele sobre os olhos, mas possui um olfato muito acurado. Apesar dos pequenos barbilhões relacionados ao sistema sensorial químico (olfato) e motor (tato), possui um dos maiores órgãos olfatórios entre todos os bagres do mundo. Já foi documentado que essa espécie pode nadar em grandes profundidades no leito do rio Amazonas, atingindo cerca de 100 metros de profundidade. Além de todas essas incríveis características e peculiaridades, essa espécie está incluída em um grupo que é tido como um dos ancestrais mais antigos de todos os bagres.

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Figura 2: Sistema nervoso central com órgão olfatório do candiru-açu. Foto: Fábio Pupo.

Para saber mais:

BASKIN JN, ZARET, TM, MAGO-LECCIA, F. 1980.Feeding of reportedly parasitic catfishes (Trichomycteridae and Cetopsidae) in the Río Portuguesa basin, Venezuela.Biotropica12: 182-186

VARI RP, FERRARIS CJJr. 2003. Cetopsidae. In: Reis RE, Kullander SO, Ferraris CJ Jr, eds. Check list of the freshwater fishes of South and Central America. Porto Alegre, Brazil: Edipurcs, 257–260.

VARI RP, FERRARIS CJJr, de PINNA MCC. 2005. The Neotropical whale catfishes (Siluriformes: Cetopsidae: Cetopsinae), a revisionary study. Neotropical Ichthyology,3 (2): 127–238.

Fontes das imagens:

Figura 1a: https://flic.kr/p/KCfPKe

Figura 1b:https://flic.kr/p/Lz9pNa

Capa: https://www.aquariumglaser.de/en/fish-archives/cetopsis-coecutiens-en/