Por Editorial

No último domingo (2) um incêndio atingiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista.

As causas do incêndio ainda são desconhecidas, mas a consequência é clara: 200 anos de história e mais de 20 milhões de exemplares científicos e objetos de arte que compunham o acervo foram quase ou totalmente perdidos.

O acervo histórico incluía coleções de paleontologia, antropologia, arqueologia, botânica e zoologia. Felizmente, parte da coleção de botânica, a biblioteca central, coleções de invertebrados marinhos e de vertebrados, que ficavam em anexos do palácio e em prédios do Horto Florestal (também na Quinta da Boa Vista), foram as únicas que permaneceram intactas.

O Museu foi a primeira instituição de pesquisa brasileira, criada em 1818 pelo Imperador João 6˚. O palácio abrigou a Família Real no Brasil e, em junho desse ano, completou o seu bicentenário.

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Museu Nacional do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista. Foto: Divulgação

Dentre os itens das coleções, cujo valor era inestimável, destacavam-se o fóssil Luzia, o humano mais antigo conhecido das Américas, datado de 11 mil anos, o meteorito de Bendegó, o maior já encontrado no Brasil, o dinossauro Maxakalisaurus topai, o primeiro dinossauro completo montado no Brasil a partir de ossos originais, múmias egípcias, os últimos artefatos de povos indígenas brasileiros já extintos, edições importantes da história brasileira e portuguesa, como a carta original assinada pela Princesa Isabel da Lei Áurea e a primeira edição da obra “Os Lusíadas”, de 1572.

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Reconstituição do crânio do fóssil mais antigo Homo sapiens das Américas, apelidado de “Luzia”, com idade estimada em 11 mil anos. Foto: Reprodução.

Incluía também objetos simbólicos que representavam o período da monarquia e a sua influência na construção da identidade cultural e científica do país, sendo um patrimônio histórico de valor inestimável.

Muito além do patrimônio imaterial (cultural), o museu abrigava um acervo único da biodiversidade brasileira e neotropical que não pode ser recuperado. A dimensão do acervo científico do Museu Nacional se equiparava àquela dos maiores museus de história natural do mundo. Incluindo, por exemplo, a maior coleção de insetos neotropicais.

A natureza única das coleções científicas é dada pela singularidade que existe em cada exemplar depositado nelas. Muitas vezes, espécimes que fazem parte dessas coleções representam o único registro de uma espécie em um determinado espaço e tempo que já não existe mais.

Muito além do patrimônio imaterial (cultural), o museu abrigava um acervo único da biodiversidade brasileira e neotropical que não pode ser recuperado

Era o maior acervo da América Latina de antropologia, arqueologia e etnologia, contendo a maior coleção de artigos egípcios da América do Sul, e uma das mais importantes coleções de paleontologia do país. Tudo ou quase tudo foi completamente perdido.

O fogo só cessou às 3 horas da manhã da segunda (3). Dos escombros, restaram apenas a estrutura do palacete e os anexos, que não foram atingidos pelas chamas. Eles abrigavam parte das coleções de invertebrados marinhos e a coleção de dípteros (moscas e pernilongos).

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Múmia egípcia do acervo do Museu Nacional. Foto: Divulgação/Museu Nacional do Rio de Janeiro.

O prédio histórico tinha problemas estruturais há anos, problemas estes que já haviam sido comunicados por diretores e ex-diretores do museu. Paredes descascadas, fios elétricos expostos e infiltrações eram comuns em todo o prédio, inclusive nas áreas da exposição.

Em maio desse ano foi aprovado projeto orçamentário junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) no valor de R$21,7 milhões para a restauração do museu. O projeto, no entanto, não tinha saído ainda do papel (por motivos burocráticos). O atraso foi fatídico. E o pior: a tragédia já era anunciada.

No início da década de 90, pesquisadores do museu apresentaram projeto para transferir as coleções de zoologia e botânica para outras instalações do museu, no Horto Florestal. Como o horto foi tombado pelo IBPC (Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural, hoje chamado Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o órgão não aprovou o projeto de transferência das coleções, pois a construção dos novos prédios iria implicar em modificações na área.

Era o maior acervo da América Latina de antropologia, arqueologia e etnologia, contendo a maior coleção de artigos egípcios da América do Sul, e uma das mais importantes coleções de paleontologia do país. Tudo ou quase tudo foi completamente perdido

Em 2004, o então diretor do museu, professor Sergio Alex de Azevedo, em entrevista à Agência Brasil, disse que a crise da instituição já durava quatro décadas e que algo deveria ser feito pois a situação elétrica do prédio era crítica.

Nada foi feito.

O orçamento anual necessário para a manutenção do museu é de R$520 mil, aproximadamente. Esse valor, no entanto, não era repassado desde 2014. Em 2018, a administração recebeu até abril R$54 mil para a manutenção.

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Meteorito do Bendegó, que foi encontrado na Bahia em 1784, com mais de 5 toneladas, o maior meteorito encontrado no país. Foto: Museu Nacional do Rio de Janeiro.

O atual diretor do museu, o paleontólogo Alexander Kellner, já havia alertado sobre os problemas de manutenção em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, em maio desse ano. Dez das 30 salas de exposição estavam fechadas e esperava-se que ao menos cinco fossem reabertas em 2019. As salas estavam, no entanto, malcuidadas e com condições precárias.

Uma dessas salas era a que abrigava o dinoprata – como é chamado o fóssil Maxakalisaurus topai. Uma vaquinha virtual, organizada por Kellner, angariou fundos para a manutenção e reabertura da sala, que ocorreu no dia do aniversário do museu (6 de junho). É provável, no entanto, que o dino esteja agora debaixo de escombros ou chamuscado pelo fogo.

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Esqueleto do dinossauro herbívoro Maxakalisaurus topai, o dinoprata, o primeiro dinossauro completo montado no Brasil. Foto: Wikipedia.

O orçamento anual necessário para a manutenção do museu é de R$520 mil, aproximadamente. Esse valor, no entanto, não era repassado desde 2014. Em 2018, a administração recebeu até abril R$54 mil para a manutenção

Não se sabe ainda exatamente quantos itens foram perdidos das coleções, mas o dano é irreparável. Foi embora parte significativa da história do Brasil e da pré-história do nosso continente.

Nos últimos anos, os cortes que vêm sendo feitos na Ciência e Educação, como o teto de gastos por 20 anos e o corte nas agências federais CNPq e Capes, colocam em xeque a pesquisa e educação brasileiras. Vivemos um momento de retrocesso, onde nosso passado é desrespeitado e queimado, e nós como pesquisadores e educadores nos sentimos de mãos atadas.

Resta apenas unir forças e lutar para tentar reerguer a já cambaleante pesquisa brasileira.

Referências:

http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2004-11-03/museu-nacional-do-rio-pode-sofrer-incendio-diz-secretario

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/05/bicentenario-museu-nacional-o-mais-antigo-do-pais-tem-problemas-de-manutencao.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/09/apos-mais-6-h-bombeiros-controlam-incendio-no-museu-nacional-no-rio.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/09/incendio-atinge-o-museu-nacional-na-quinta-da-boa-vista-no-rio.shtml

http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252018000300017&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/09/saiba-mais-sobre-o-incendio-que-destruiu-no-rio-o-museu-mais-antigo-do-pais.shtml

https://educacao.uol.com.br/noticias/2018/08/02/capes-diz-que-so-tem-verba-para-bolsas-de-pos-graduacao-ate-agosto-de-2019.htm

https://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,cnpq-diz-que-so-tera-verba-para-bolsas-em-2019,70002438970

https://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/10/politica/1476125574_221053.html