Por Ana Bottallo

Sem dúvida todo cientista sonha em receber o famoso prêmio Nobel. É o mesmo que um ator/atriz sonhar em receber o Oscar, com uma vantagem a mais: cada laureado leva de quebra um prêmio em dinheiro, que pode ser usado para ajudar na sua pesquisa. Se essa pode ser considerada a ambição máxima de todo cientista, imagine a sensação de ganhar duas vezes a medalha, em duas áreas distintas. E o melhor (e mais difícil) ainda: ganhar dois prêmios sendo mulher no início do século 20. Pois para Marie Curie, esse sonho se tornou realidade.

Nascida em 7 de novembro de 1867, em Varsóvia, Maria Salomoa Sklodowska, mais conhecida como Marie Curie, passou por muitas adversidades na vida até alcançar a notoriedade. Irmã caçula de cinco filhos, ela cresceu na fria capital polonesa até os 24 anos, quando se mudou para França, onde foi morar com sua irmã mais velha que cursava medicina. Seu pai, professor universitário de matemática, e sua mãe, professora de colégio, sempre incentivaram os filhos a seguir os estudos. Mas como seu pai era ligado a movimentos políticos separatistas poloneses, foi perseguido pelo governo russo, e perdeu o emprego na universidade, o que deu início a um período de dificuldades econômicas para a família.

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Marie Curie. Crédito: medium.com

Após a morte da sua mãe e de sua irmã mais velha, quando Maria tinha 10 anos, seu pai conseguiu mandar sua segunda filha para a França. Enquanto isso, Maria seguiu os estudos primários e se formou no colégio aos 15 anos, como melhor de sua turma. Embora o pai a incentivasse a cursar o ensino superior, as mulheres não eram aceitas nas universidades polonesas na época, e Maria ainda não tinha juntado dinheiro suficiente para poder viajar para fora.

Quando finalmente conseguiu o dinheiro necessário, mudou-se para Paris para cursar estudos científicos na universidade Sorbonne, que havia aberto suas portas para mulheres há apenas duas décadas, e de quebra ajudar sua irmã mais velha. Não deixou de sofrer, no entanto, com o preconceito e o julgamento dos seus colegas de turma homens.

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Marie e Pierre Curie. Crédito: Homesofthenet.com

Em 1893, Marie Curie obteve seu diploma em ciências físicas. Um ano depois, ela obteve também o diploma em ciências matemáticas. Nessa época, ela conhece Pierre Curie, também físico e professor na Escola de Física e Química Industrial da Cidade de Paris, uma escola de Engenharia prestigiada.

Os dois passam a trabalhar juntos e se casam no ano seguinte. Naquela época, o francês Henri Becquel (1896) havia acabado de descobrir que os minérios de urânio emitiam uma radiação um tanto estranha, e o casal Curie passou a colaborar para descrever o fenômeno curioso. Pierre estava certo que deveriam investigar o elemento urânio, e os três investigavam a hipótese de que os elementos químicos tinham propriedades naturais de radiação que eram físicas, e não químicas. Mas foi Marie Curie quem cunhou o termo “radioatividade”. Essa primeira descoberta, fruto da colaboração dos três cientistas, rendeu-lhes o prêmio Nobel de Física em 1903. Marie Curie tornou-se a primeira mulher a receber a láurea.

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Instituto do Rádio, 1920, Paris. Crédito: Parisinfo.com

A área de estudo dos Curie, os radioisótopos ou a emissão de radiação por elementos químicos isotópicos, era de grande importância no momento, uma vez que o físico alemão Wilhem Röntgen tinha acabado de descobrir os raios-X (1895). Marie Curie decide, então, fazer uma tese de doutorado no tema, analisando os raios urânicos (emitidos pelo elemento urânio).

Foi durante sua pesquisa de doutorado (sem a colaboração de Becquerel ou de Pierre) que Marie descobriu que outros elementos também emitiam radiação. Ela encontrou assim dois elementos químicos inéditos: o rádio e o polônio (cujo nome foi dado em homenagem ao seu país de origem). Esse importante achado científico fez com que a Academia Real de Ciências da Suécia lhe concedesse o seu segundo prêmio Nobel, dessa vez em Química, em 1911.

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Marie Curie com Albert Einstein. Crédito: wikipedia.com

Em 1906, Pierre Curie morre em um acidente de carro. A morte de Pierre deixou Marie muito abalada, mas ela segue em frente com o sonho de continuar estudando a radioatividade e sua principal aplicação, que ela investigava com afinco: a radioterapia como forma de tratamento contra o câncer.

Após a morte do marido, Marie se candidata à vaga de professora de Física Geral na Faculdade de Ciências de Paris. Ela também passou a ensinar na universidade Sorbonne. Foi com seu conhecimento em radiografia que Marie Curie passou a desempenhar papel importante na Primeira Guerra Mundial, onde propôs o uso da radiografia móvel – e criou os equipamentos necessários – para identificar ferimentos com balas em feridos de guerra.

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Marie Curie com outros cientistas em Conferência de Solvay sobre Mecânica Quântica, em 1927, em Bruxelas, Bélgica. No centro, Albert Einstein. Foto: Benjamin Couprie, Instituto Internacional de Física de Solvay, Bruxelas, Bélgica.

Após a guerra, Marie Curie escreveu um livro de relatos, intitulado “Radiologia na Guerra” (1919), onde contou como foram os anos trabalhando para o armistício. Mesmo após o fim da guerra, ela continuou com os trabalhos em radiografia, e fundou o Instituto do Rádio, em Paris e na Polônia. Ambos os institutos funcionam até hoje e têm alto prestígio em estudos médicos.

Marie Curie destacou-se como cientista de prestígio, fez viagens a diversos países, incluindo o Brasil e os Estados Unidos, onde foi recebida pelo presidente americano na Casa Branca. Conheceu e discutiu longamente sobre teoria da relatividade com ninguém menos que Albert Einstein. Marie e Einstein dividiam não apenas a profissão e o prestígio, mas também a origem de famílias judaicas que foram expulsas de suas terras quando os nazistas passaram a perseguir os judeus. Marie Curie tinha receio que a sua pesquisa – fonte de inspiração máxima em sua vida – fosse utilizada para fins bélicos.

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Irène Joliot-Curie e Marie Curie, mãe e filha, trabalhando juntas em seu laboratório. Crédito: Stanford University.

Marie Curie faleceu em 1934, de leucemia. Ela havia se internado nos últimos anos em um hospital psiquiátrico. Infelizmente, à época de sua pesquisa não se conheciam ainda os efeitos que a radiação causava à saúde, e ela manuseava os elementos radioativos, muitas vezes sem luva, ou levava-os próximo ao corpo nos bolsos do jaleco.

Nos anos iniciais de sua pesquisa e enquanto fazia o doutorado, Marie e Pierre tiveram duas filhas, Irène Curie e Ève. Irène seguiu os passos da mãe e fez carreira acadêmica em química, recebendo o prêmio Nobel em Química em 1937, três anos após a morte de sua mãe. Já Ève Curie foi escritora e autora da biografia de sua mãe.

Em todo o mundo, o nome de Marie Curie já foi citado como exemplo de uma grande cientista e de uma das pessoas mais influentes para a história da ciência do século 20. Ela é também uma inspiração para todas as meninas e jovens mulheres que alguma vez escutaram “lugar de menina não é na ciência” ou “mulheres não são boas em exatas”. Que o legado e a história de Marie Curie fiquem para sempre como uma lição contrária a essas ideias!

 

Referências:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Marie_Curie

 https://super.abril.com.br/historia/marie-curie-a-polonesa-mais-brilhante-do-mundo/ 

Filme sobre a Marie Curie

Biografia de Marie Curie por Ève Curie