Por Ana Bottallo

  Imagine um rio que te transporta direto ao passado. Imagine agora encontrar nesse passado criaturas estranhas, diferentes, que representam um mundo distante. Pode-se dizer que foi essa a sensação que a equipe de paleontólogos do Departamento de Geologia da Universidade do Noroeste da China teve quando desenterrou os segredos do rio Danshui, na província de Hubei, sul da China. A descoberta foi divulgada na última sexta (22) na revista americana “Science”[1].

  A expedição revelou mais de 20 mil novos fósseis, de diversos grupos de animais e plantas. Entre eles, mais de 4 mil já foram descritos como espécies novas. São organismos tão diversos como águas-vivas e crustáceos, além de alguns animais pouco conhecidos, como priapulidos e kynorhynchas.

  Mas o que mais chamou a atenção da comunidade científica foi a incrível conservação dos organismos, com os chamados “tecidos moles” – como peles, órgãos internos e olhos – preservados. Em geral, nos fósseis, as estruturas moles não fossilizam, mantendo apenas os tecidos duros, como ossos, dentes e carapaças conservados.

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Figura 1. Fósseis de Qinjiang. Fonte: Science/Divulgação.

 

  A diferença é que nesse tipo de formação, conhecida como lagersttäte (ou folhelho) o soterramento dos animais ocorre de maneira muito rápida, o que pode ter impedido a degradação natural dos órgãos. Existem outros sítios que preservam organismos de maneira surpreendente, que os autores se referem no texto como “Burgess-Shale Type” ou BST, sendo os mais famosos o Folhelho Burgess (cuja idade é de aproximadamente 505 milhões de anos), no Canadá – o primeiro a ser descrito para a fauna Cambriana – e o sítio de Chengjiang (de idade aproximada 520 milhões de anos), também na China (figura 2).

 

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Figura 2. Comparação entre a abundância de formas encontrada em Qinjiang e em Chengjiang. Material suplementar/Science.

 

A explosão cambriana

  Já o novo sítio chinês, que data de aproximadamente 518 milhões de anos (Cambriano Inferior), contém uma abundância e diversidade de formas até então desconhecida da chamada “Explosão cambriana”. A explosão cambriana é bem documentada na literatura e representa um momento na história evolutiva da Terra onde se originaram e se diversificaram diversos grupos animais, muitos presentes até hoje, como os vertebrados e os artrópodes.

  A abundância de formas na passagem do Pré-Cambriano (predominância de formas menos complexas e que viviam no substrato marinho, em sua maioria sésseis) para o Cambriano (explosão de formas mais complexas, surgindo os primeiros predadores marinhos, ágeis e que se movimentam na coluna d’água) é um dos eventos na história evolutiva que mais intrigam os cientistas.

  Organismos como Anomalocaris e Pikaia (figura 3), da formação Chengjiang e do Folhelho Burgess, respectivamente, se tornaram símbolo dessa explosão, mas o sítio de Qinjiang possui muitos outros organismos com formas ainda mais diversas, o que pode ajudar os paleontólogos a entenderem melhor os eventos que levaram à evolução da vida em nosso planeta.

 

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Figura 3. Os animais cambrianos Pikaia e Anomalocaris. Fonte: Wikipedia e PaleoBlog.

  Ainda, muitos animais hoje poucos conhecidos por serem grupos relictuais ou de difícil estudo, como os priapulidos e os kynrhorhynchas, aparecem em Qinjiang em formas antes não conhecidas, o que irá auxiliar no entendimento da sua origem e evolução nos últimos 500 milhões de anos. Outros grupos, como por exemplo os ctenóforos, que até o momento tinham poucos registros fósseis, foram encontrados no novo sítio e com formas muito parecidas com as atuais, o que indica que o seu plano básico quase não mudou desde a sua origem até o presente.

 

Qinjiang Vs Chengjiang

  Um dos autores do estudo, o geólogo Robert Gaines da Pomona College, disse em entrevista à BBC[2] que o achado em Qinjiang é especialmente particular porque “grande parte das criaturas são organismos de corpo mole, como águas-vivas (figura 4) e anelídeos, que normalmente não tem quase nenhuma chance em serem preservados no registro fóssil”.

 

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Figura 4. Medusa fossilizada encontrada em Qinjiang. Fonte: Science/Divulgação.

  O novo sítio caracteriza-se por ser da mesma assembleia fóssil que Chengjiang, compartilhando não apenas as mesmas unidades estrato-geólogicas como também organismos fósseis, como a espécie de trilobita Eoredlichia intermedia e animais de corpo mole (figura 5). No entanto, algumas diferenças entre o novo local e a já conhecida biota são a maior presença de cnidários em Qinjiang, incluindo formas de pólipos (sésseis) e medusas (águas-vivas) e a maior complexidade dos organismos de corpo mole, como esponjas, ctenóforos e priapulidos (figura 6).

 

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Figura 5. O fóssil Eoredlichia intermedia, uma espécie de trilobita encontrada nos sítios de Qinjiang e Chengjiang. Material suplementar/Science.

  Na biota de Qinjiang, assim como em outros sítios de folhelho burgess, destaca-se um grupo de organismos chamado “Ecdysozoa”, que inclui, dentre outros, os artrópodes, onicóforos, tardígrados e vermes nematomorfos, sendo muito representado e diversificado no sítio.

 

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Figura 6. Reconstrução da biota de Qinjiang. Ilustração: Z. H. Yao e D. J. Fu. Reprodução/Science.

  Segundo os autores, esses “padrões de diversidade e a alta proporção de novas espécies em Qinjiang sugerem que as diferenças entre as duas faunas refletem mudanças primárias em estrutura ecológica e comunidade entre as duas regiões”. Em outras palavras, as duas faunas diferem porque as pressões ambientais de cada região levaram a dois cursos distintos na história evolutiva desses filos. Assim, o achado se torna ainda mais importante, pois pode ajudar no entendimento do curso evolutivo de comunidades semelhantes sob diferentes aspectos ambientais. Os autores concluem, ainda, que os aspectos distintos de Qinjiang “têm o potencial de revelar substancialmente o nosso entendimento sobre a evolução animal primitiva”.

Saiba mais sobre este estudo:

[1] http://science.sciencemag.org/content/363/6433/1338

[2] https://www.bbc.com/news/world-asia-china-47667880

Sobre o Folhelho Burgess:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Folhelho_Burgess

Sobre Chengjiang:

https://whc.unesco.org/en/list/1388